Sobre amor e dor quando rimam, ou quando são a mesma coisa


Nesse mundo das letras, muita gente fala mal de Zezé di Camargo e Luciano e todas as outras duplas sertanejas ao seu estilo, porque rimam amor com dor. Pois eu acho que se essas duas palavrinhas são rimas tão óbvias, não deve ser por acaso. Isto é, só quem nunca amou pode achar que o amor é uma coisa totalmente boa, ou que a dor é totalmente ruim. Aqui me complico, pelo seguinte motivo: homens e mulheres amam de modos diferentes. E me complico ainda mais, porque cada pessoa ama de um jeito diferente. Virou moda esse imperativo social-pseudo-intelectual de “não generalize”, mas se eu não fizer isso minimamente, não posso escrever. Então,  tomemos modos femininos e modos masculinos de amar como sendo diferentes formas de amor, e não como associados ao sexo anatômico de cada um. (Já disse Freud que não é a anatomia que define um sujeito como sendo homem ou mulher). Bom, vamos retomar, então eu supunha que há modos masculinos e modos femininos de amar, mas que todo aquele que já amou sabe que amor e dor se mesclam, ainda que a gente lide com isso de jeitos diferentes. Continuemos. Acho que no amor feminino há mais dor do que amor, e que o feminino tem o “dom” de transformar dor em coisas boas. Não digo aqui de masoquismo ou coisa assim (ao menos não como se concebe isso no senso-comum), mas talvez tenha sido até uma questão de sobrevivência psíquica, que o feminino tenha aprendido a transformar dor em amor (ou sempre soube?). Vocês sabem que por mais que o mundo tenha evoluído (aliás, que a tecnologia tenha evoluído), ainda hoje só as mulheres menstruam, só elas podem parir e isso tudo envolve sangue. Associo sangue à dor. Pois assim sendo, se a mulher não soubesse transformar dor em amor, ou o mundo teria acabado em Eva, ou ser uma mulher seria uma tortura, ou ainda, talvez se a mulher não pudesse fazer essa alquimia, seria homem psiquicamente. Ah é, o homem. Vejam, comecei falando de amor e dor pra separar modos masculinos e femininos de amar, e me perdi aqui (porque sou uma mulher?) me encantando ao falar do modo feminino de amar. Ao que me parece, para o homem, amor e dor, quando se misturam, é porque a coisa ficou perigosa. Os homens não lidam bem com a dor (Prestem atenção numa mulher com gripe e num homem com gripe, e dificilmente acho que alguém discorde de mim) e por isso tendem a querer se livrar dela, ao invés de aprenderem a amá-la. Sei que esse texto está confuso, estávamos de férias e a Confraria dos Trouxas volta hoje (desculpa minha, talvez eu só esteja escrevendo de forma confusa mesmo), mas eu só espero que vocês não pensem que estou falando que as mulheres vieram ao mundo pra sofrer ou coisa assim. Porque no final das contas tudo o que eu queria dizer era que as mulheres só amam desde que algo doa, e que isso pode ser muito bom. E assim, os poetas são um tanto femininos, apesar de muitos serem bem viris.



“Se há algo que define o que é ser um homem e o que é ser uma mulher, 
este algo está fora das palavras”, 
disse Eliane Brum em sua coluna de hoje 

8 comentários em “Sobre amor e dor quando rimam, ou quando são a mesma coisa

  1. Ana, me dá um abraço daqueles gostosos de doer?

    Se há alguma confusão, não é no seu texto, mas nessa coisa de amar.

    Aliás… Amei!

  2. Se não for confuso, não é amor.
    Se souber explicar, não é amor.
    Se não doer, não é amor.
    Engraçado como tentamos definir o que é amor evidenciando aquilo que não é. E tem tudo a ver com o seu texto, porque tentar separar amor de dor, é separar vida de morte, e não há um sem o outro. Aliás, acho que aí está a aproximação de amor e dor: ambos nos fazem sentir, nos fazem vivos. Principalmente nós, mulheres, que valorizamos tanto essa loucura de sentires. “não importa” se é bom ou ruim, desde que me faça viver.

    Adorei o texto, e concordo com a Flah: se há confusão é no amor, não no texto.

    Um beijo!

  3. Ana! Primeiramente venho dar parabéns pelo blog. Acessei-o através do blog de um amigo (um blog sempre puxa outro e assim vai. 🙂 ) e achei muito legal.
    Bom, acredito que o tema não seja tão simples assim. Mas vamos por partes:
    1. Costumo separar paixão de amor. Para mim uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa (rsrsrs). Acredito que a dor, da forma que entendi, está mais associada à paixão não correspondida ou não vivida. Já o amor é uma coisa mais branda, mais estável, costumo dizer: mais “morna”; assim como a “dor do amor” também mais leve.
    Já escrevi alguma coisa sobre dor, amor e paixão.
    2. Com relação à diferença entre homens e mulheres no quesito amor/dor, acho que é uma questão predominantemente cultural.
    As mulheres foram (e ainda são) criadas para serem o sexo frágil e os homem para não chorarem.
    Claro que isso vem mudando com o tempo. Mas até hoje ainda vejo nas ruas, pais dizendo: não faça isso com ela, é uma menina! Ou, pare de chorar. Homem não chora!
    E assim vão reproduzindo essa “cultura atrasada”.
    O homem é criado para ser forte, insensível, voraz, caçador (de mulher mesmo!), viril, etc.
    A mulher para ser a “presa”, a meiga, a doce, a fŕagil, a sensível.
    Isso está no “inconsciente coletivo” da nossa sociedade.
    Claro que se perguntarem à qualquer um na rua, darão a resposta “politicamente correta”: Não! As mulheres são fortes! Ou: Homem chora sim!
    Bom, mas se encontrarmos uma mulher, como costumo dizer, “pra frentex”, uma que queixa os caras, que dá em cima, que “manda ver” é logo taxada como vagabunda e é menosprezada.
    O homem, não! É garanhão e é elogiado! Ou se chora é frouxo, boiola, etc.
    Bom, resumindo, o que quero dizer é que a nossa cultura influencia, e muito, nesses conceitos e valores.
    Acho que a dor à qual se refere está mais associada à paixão do que ao amor propriamente dito.
    Abraço!

  4. Fiquei boquiaberta com o texto, meu deus!
    É, o amor tem dessas, de a gente amar e ir doendo por dentro…
    Parabéns pelo blog e pelo texto! *o*

  5. Boa noite.

    Acho também, que homens e mulheres amam de forma diferente.
    Talvez seja esse o motivo principal da maioria das separações.

    O homem costuma analisar a mulher, como se ela pensasse como um homem.

    São tão objetivos que não querem perder tempo conhecendo a alma feminina.

    Paz e alegrias.

    Maria Auxiliadora (Amapola)

  6. E eu aprendi, vivendo-amando-doendo, que ser mulher é dançar entre a dor, o amor e as incertezas, e fazer desse mistério, poesia.
    Façamos, pois.

    Você, Ana, é absurdamente perfeita nessa coisa de escrever e fazer eu me arrepiar inteira [reticências].
    Tão bom perceber suas tantas facetas como escritora, sabia? Esse texto foi a confusão[?] das mais bem escritas que eu já li. De verdade.
    A literatura contemporânea precisa de um livro seu. Eu também.
    🙂

    Um beijo, querida.

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