A rosa azul

Era um cara que passava pela vida, mas a vida não passava por ele. Comia, dormia, trabalhava, namorava e dizia que era feliz, se alguém perguntasse. Tinha alma míope, não sentia o gosto das coisas, as rosas não tinham espinhos e nem eram rosas. Tinha olhos brilhantes porque aprendeu a fazê-los brilhar. A gente pode aprender qualquer coisa nessa vida. Esperava sempre pelo próximo momento, acompanhado sempre dos momentos anteriores. O presente é a coisa mais difícil de viver. Estava tudo bem. Um dia ele ganhou uma rosa azul, de uma vizinha velha com cheiro de ração para gatos. Estava no elevador. Ela fitou-o com olhos vazios e coincidentemente também azuis, e entregou-lhe a tal flor na mão, acompanhada de um bom dia. O cara segurou a flor e espetou o dedo nela, de onde saíram algumas gotas de sangue vermelho. E aí ele enlouqueceu. Fim.

Você pode pensar que a história é maluca, e ela é mesmo. Eu devia encerrar o texto aqui, mas o meu lado professora, onde tudo-tem-que-fazer-sentido-e-ser-explicado, berra aos meus ouvidos para que eu escreva mais um parágrafo. E eu, que não sei lidar bem com a poesia, com a falta de sentido das coisas e com os não-ditos, ponho-me a escrever um parágrafo inútil. Então eu só queria dizer que a vida simplesmente é. Sem sentido, com sentido, ela só é. E que o amor a obriga a ser. E que o amor é uma loucura que a gente suporta. E que se a gente não suporta, fica só com a loucura, sem o amor. E que o espinho de uma rosa pode mudar tudo. Ou pode ser a cor da rosa. Ou pode ser a velha no elevador. Ou pode ser o bom dia. Ou pode ser o  fato de darmos atenção às coisas bestas da vida. Porque é de coisas bestas que uma vida se faz. É de coisas bestas que o amor se constrói. É de coisas bestas que destruímos o amor. É de coisas bestas que a gente fica feliz e também o contrário. Então talvez seja por isso que viver o presente seja coisa tão complicada, porque é como se jogar de um penhasco. A gente deixa sempre um pé seguro – no passado ou no futuro, e só o outro pé é que fica no presente. E acho que o meu parágrafo-explicativo nada tem de explicativo. Menos mal. É na falta de sentido que a poesia respira.

6 comentários em “A rosa azul

  1. teu texto, como um todo, me fez lembrar de dois grandes poetas, o meu mestre Quintana:

    “E que fique muito mal explicado.
    Não faço força para ser entendido.
    Quem faz sentido é soldado”

    e o não menos mestre Drummond:

    “Cidadezinha qualquer

    Casas entre bananeiras
    Mulheres entre laranjeiras
    pomar amor cantar.

    Um homem vai devagar.
    Um cachorro vai devagar.
    Um burro vai devagar.

    Devagar… as janelas olham.

    Eta vida besta, meu Deus.”

    porque a vida, seja acelerada ou devagar é besta, e porque fazer sentido nem sempre é o que se deseja.

    besos,
    @paraquenomes

  2. Eu gostei do texto, gostei mesmo! A gente tem mania de querer entender e explicar tudo, mas é assim mesmo do ser humano, querer encontrar sentido para aquilo que somente é, é azul, rosa ou roxo, não tem explicação só É 😉

    Adorei!
    Thais
    stothais.blogspot.com

  3. Ah, começar a semana com teus textos. Isso ja esta virando um hábito. E o melhor, passo a semana mudando a visão deles. Quando chega no sábado, releio e interpreto de outra maneira. É como se voce escrevesse um para cada dia da semana. Isso é o que sinto. Tem sentido?

    Quero que tenha. Quero que a semana acabe e eu tenha sentido o quão poeticamente sincronizadas foram as letras com meu dia a dia.

    Gostei demais! Beijo!

  4. “É na falta de sentido que a poesia respira” (genial!) e na falta de sentido que o amor viva.
    E o teu texto tem um quê de não-sentido que faz sentir muito.

    Amei!

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