Amadureci. Você caiu.

Sempre fomos confidentes. Sempre soube de todos os casos e acasos dela. Desde o primeiro beijo até o último, em mim. E nunca me incomodou. Talvez o único que tenha incomodado de verdade, fora esse. E tem um por que.

Somos vizinhos desde nossos 8 anos. Lá se vão 15 anos de convivência. Entre festas, copas do mundo, carnavais, anos-novos. Sempre lá, nossas famílias unidas. 

Cada ano que passava eu a encontrava com um cara diferente. Alguns simpáticos, outros nem tanto. Eu também sempre tive minhas paqueras e assim, compartilhávamos nossas experiências.

Quando lemos Dom Casmurro no colégio foi assumidamente amor à primeira vista para ambos. Ela Capitu e eu Bentinho. Tudo muito clichê, não? Não. Pois nunca tivemos nada, até esse último carnaval.

Ah, essa maldita festa pagã….

Eu bebi, ela bebeu…. e a carência de ambos fez um favor. Nos colocou na mesma cama. Consumimos. Um ao outro, sem pestanejar. 

Acordamos juntos, passamos os últimos dias de feriado praticamente colados um ao outro, até que me veio a mente aquela vontade louca de dizer: eu te amo.

E eu falei.

E ela surtou.

Tentei me explicar. Dizer que amava em silêncio, que me contentava com a amizade, que para mim o sexo havia coroado nessa relação. E eu queria mais.

Ela retrucou: ‘Você não sabe o que diz. Não se diz para uma mulher que a ama somente depois de transar com ela. Se me amasse, como está tentando se explicar, já teria dito anos atrás. E mais, não sou quem você pensa, não sou o que você precisa.’

A mim, restou apenas baixar a cabeça. Ela tinha razão. Eu estava embevecido com a maratona carnal que tivemos, e me deixei levar pelo irracional.

Tentei escrever uns versos para me redimir. Explicar em prosa o que sentia.

Sempre fui bom com as palavras. Mas dessa vez, não tinha escapatória. Nem isso me salvaria. Escrevi um bilhete que dizia exatamente assim:

‘Peguei papel e caneta e me deparei com um dilema. Como vou usar Zenaide em meus sonetos. Você não cabe em meus versos decassílabos. Nem a poesia te ama.  
Passar bem!’

11 comentários em “Amadureci. Você caiu.

  1. Pra poesia não gostar de alguém, a pessoa tem que ser muito boa, superior aos versos. Aquela não engole intriga, ela vomita. E foi o que você fez, em prosa. 🙂 [e de forma maravilhosa, as well]

  2. A vida que não cabe nem na poesia é a mais real de todas.

    Adorei o texto, o final surpreendente, tudo!
    Belíssima estreia, confrade, seja muito bem vindo!

  3. Muitíssimo bem-vindo, com um belíssima prosa!

    Mas olha…eu acho muito lindo isso de não ser amada pela poesia!

  4. Ah! A infância que o diga, Cláudio! Ana está em tanta coisa, que olha, ainda bem que eu tenho o meu segundo nome…rs

  5. Bela estreia, e agora sim, posso te chamar de confrade! E por estarmos perto do último carnaval, teu texto me fez pensar no quão bobos somos quando mais novos, bendito é o tempo que passa. Seu bilhete foi quase perfeito, o passar bem achei desnecessário 😉 Carnavalizar sempre, garotear jamais.

    abraços,
    @paraquenomes

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