Amor é um acidente estranho que nunca paramos de procurar.

O amor é um acidente esperando para acontecer.

Essa frase de Closer fez com que eu me lembrasse do título do João Paulo Cuenca “O único final feliz para uma história de amor é um acidente.”. Por que essa associação entre amor e acidente? O que primeiro me vem é que é uma associação óbvia. Acidente no sentido de algo inesperado, acontecimento fortuito, acaso. E, também, desastre. Tudo isso não fala do amor? Suspiro. Mais uma vez vou cair na lenga lenga de (in)definição do amor? Não. Dessa vez vou apenas submeter-me ao significante e dizer, com todas as letras: o amor é um acidente. Imprevisível, incontrolável e desastroso.
Desejo é um estranho que você pensa conhecer.
Acho que desejo é um estranho, ponto. E que pensamos conhecer porque pensamos nos conhecer, achamos que sabemos tudo sobre nós, muito sobre o outro e que esse saber vai tornar a vida mais fácil. Mas aí vem o desejo, sem regras, sem moral, muitas vezes contra a nossa vontade e estraga tudo. Não conseguimos controlar nem nosso pensamento, é muita pretensão achar que podemos controlar o desejo – nosso e do outro. O que não quer dizer que não sejamos responsáveis pelo que fazemos em relação ao desejo que nos assola; Alice diz a Dan no filme: Há um momento, há sempre um momento “Posso resistir ou posso ceder a isso”, e eu não sei quando foi esse momento pra você, mas aposto que ele existiu. E é isso: sim, o desejo é um estranho que não conhecemos ou controlamos, mas ceder ou não a ele cabe a nós – mesmo quando agimos sem saber.
Intimidade é uma mentira que contamos a nós mesmos.
Adoramos achar que a intimidade nos proporciona um conhecimento ilimitado do outro. Que uma vez que somos íntimos de alguém conseguiremos saber tudo o que aquela pessoa pensa, prever suas atitudes, que poderemos agradá-la ou agredi-la conforme nossa vontade sem arriscar um resultado inesperado. Isso não existe. O outro é terra de ninguém, sempre, não importa quanto tempo se passe nem quão honestos nós e o outro sejamos. O problema não é a mentira que o outro conta, pois mesmo a mentira diz muito de quem a fala, a questão é que não somos lineares, nossas atitudes são imprevisíveis para nós mesmos, e mais ainda para a outro. Inventamos a intimidade para nos acalmar, para não ter que nos encontrarmos o tempo todo com o fato de que o outro, por mais conhecido que seja, será sempre um estranho.
Verdade é um jogo que jogamos para ganhar.
“A verdade vai te libertar”, “A verdade nos aproxima”, poderia ficar linhas e linhas citando frases que elogiam a verdade. Mas aí não diria que a verdade não tem necessariamente a ver com honestidade, muito menos com bondade. Podemos usar a verdade para magoar, para destruir, para nos colocarmos num lugar de superioridade em relação a um outro que mente. Usamos a verdade para “sermos melhores” e para nos eximirmos de responsabilidade: estou te dizendo a verdade, não importa quão horrível ela seja, que crime eu tenha cometido, você vai ter que diminuir minha pena porque eu poderia mentir. O fato de contar a verdade em si não significa nada. Ou pode significar muitas coisas, mas nem sempre algo bom. Não pretendo fazer uma apologia à mentira, mas acredito que a verdade às vezes é apenas moeda de troca, uma tentativa de pagar de modo menos doloroso por algo que fizemos.
Aqueles que acreditam em amor à primeira vista nunca param de procurá-lo.
E depois de tantos conceitos confusos, frases duras, depois de tanta crueza e crueldade humana, é reconfortante pensar em amor romântico, bobo, trouxa. Todas essas frases que constroem não só o trailler, mas todo o enredo de Closer, traduzem muito bem o filme. E essa última também. Ela é o resquício de ingenuidade presente, por exemplo, quando Alice pergunta: “Por que o amor não é suficiente?” O amor “apenas” pode não ser suficiente para manter uma relação. Mas, sem amor, não há relação que valha a pena. Ao menos não para mim: boba, trouxa, romântica incurável com um inconsciente tão tomado de amor que ao tentar escrever luta escreve lua, e logo começa a lembrar das lindas noites de lua cheia vividas ao lado daquele que amo à primeira vista todas as vezes que vejo chegar.

11 comentários em “Amor é um acidente estranho que nunca paramos de procurar.

  1. “…com um inconsciente tão tomado de amor que ao tentar escrever luta escreve lua, e logo começa a lembrar das lindas noites de lua cheia vividas ao lado daquele que amo à primeira vista todas as vezes que vejo chegar.”

    Trouxa incurável que sou, fiquei detida nesse trecho final alguns minutos…

    Adorei as reflexões, Cá.
    O texto ficou muito bom!

    Beijo,

    Tá.

  2. Como disse a Andressa, voce ajuda!! Seus textos são para mim, sessões de terapia a distância.

    Acerto contigo no sabado, quando publicar o meu tá bom?!

    Beijo Cá!

  3. Que texto incrível! Esse tema (Closer) está rendendo, estou adorando todos o posts.

    Uma pena que o amor não seja o suficiente… estou reaprendendo a viver sem essa parte da minha vida, “desencontrada” recentemente e esperando novos “acidentes”.

  4. Luta, lua, nua…

    O significante sempre nos arre-matando!

    Sua escrita fica cada dia mais linda e leve, Carina.

    E no fim das contas acho que super valorizamos o amor e a verdade.

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