Amorte.

Começo, meio, fim. Cabeça, tronco e membros. Introdução, desenvolvimento e conclusão. Nascer, se desenvolver e morrer. Pôr ordem nas coisas. É o que a gente faz todo o tempo. A partir daquilo que conhecemos, tentamos prever o que vai acontecer, tentamos entender o que está acontecendo, e com isso anunciamos a morte das coisas. Porque tudo o que começa, termina – não é assim que a gente acredita? É como aquele cara que vai a uma exposição de arte moderna, e diante daquelas telas pintadas de forma aparentemente maluca, tenta matar a arte, tenta reconhecer ali uma forma já conhecida. É como aquela criança (principalmente a criança adulta) faz com as nuvens. Olha pro céu, vê o non-sense das nuvens, e enxerga coelhos, gatos, formas humanas, sorrisos. A morte das nuvens. Assassinamos todas as coisas ao nosso redor. Assassinamos até mesmo o amor. Presta atenção: as coisas que você mais reclama no seu parceiro (a), namorado (a), amante, é aquilo que você mais sentirá falta na pessoa. O jeito de entortar a cabeça quando fala, a mudança de expressão ao falar de um assunto sério, a forma de tossir quando mente, o riso nervoso. Então acho que cada vez que tentamos definir o amor, o matamos um tanto. E então os poetas são serial-killers do amor, então a literatura é um imenso cemitério. Acho que quando Freud falava da pulsão de morte, ele falava um pouco disso, dessa nossa compulsão por matar as coisas na tentativa de explicá-las. E o bom é que isso não é ruim.





8 comentários em “Amorte.

  1. pode ser clichê mas é verdade…amor é pra ser sentido não explicado!
    por que quando era pra acabar parece que começou tudo de novo? não sei, vamo ver o que que dá…

  2. Adorei o texto, Ana, mas fiquei fisgada no final: eu acho que é ruim, sim, viu, essa nossa mania de tentar entender tanto a ponto de “matar” as coisas. Tenho um “ideal” de que tudo seria melhor se tentássemos entender menos.
    E esse trecho aqui: “A partir daquilo que conhecemos, tentamos prever o que vai acontecer, tentamos entender o que está acontecendo, e com isso anunciamos a morte das coisas.”
    Nossa, faca no coração, hein. Mas perfeito!

    Adorei, como sempre!

  3. Adorei mesmo teu texto!
    E é como dizem ‘amor não se explica, se sente’.
    Tu me matou aqui “Então acho que cada vez que tentamos definir o amor, o matamos um tanto”. *-*

  4. Ana, vou colocar uma placa de PROCURA-SE na tua foto.
    Voce esta texto a texto, palavra por palavra, se tornando uma serial-killer!

    Matou bem matado essa semana 😛

  5. “Certa vez me perguntaram “Porque você me ama?” e ali mesmo eu comecei a entender que estava amando a pessoa errada…” Esse foi um comentário meu numa discussão sobre nem tudo precisar de explicação, eu não mato o amor, porque não me atrevo a explica-lo, e quem pede isso de mim, só tende a me afastar.

    besos,
    @paraquenomes

  6. falando em poetas serial-killers e freud: não foi por acaso que william blake antecipou a doutrina do “pai” da psicanálise.

    excelente texto.

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