emano da tela árida película

carminado é o caminho, pois anda!, emoldurado de águas brumosas, um derramar de escolhos umbrosos em poços de duvidosa fundura. corte cadenciado, a trilha sobe no pulsar da lua,
uivo ferido, a pele a suportar as ruas… as ruas a sustentarem o peso denso dos corpos… os corpos a ampararem a tensão desmedida dos fanáticos exemplares…
– nós,
espelhos e labirintos remendados de musgosos venenos ao deleite da nada velada voragem do tempo… os relógios se convertem em pequenos deuses, todas as coisas, todos os nomes. muitas esperas em movimento. onde foram parar os encontros?
– ah! estas vozes em retrospecto delírio de vontades latentes, marulhos de talantes íntimos, entranhas roídas, ruídos a suplicar o desvelo da essência do ser em
nós.
– mas como?, num silencioso jardim escutamos o colorido do cheiro a tocar os olhos sinuosos da primavera febril, semeados de veleidades de amores-perfeitos, velamos o que há de mais desigual em
nós…
– nós! nós e mais nós, sempre o nós. a multidão procria-se em acelerada e egoísta marcha.
encontro-me só! um habitante cego em terra segada…
eu, eu, eu… eu ecoa distante o abrupto berro, meu rogo… eu esfaimado fauno dos bosques…
– ouço a canção, nada me diz, além do que já se sabe, eu sei, insalubre, nada lúbrico nem cônscio nem lúdico nem sequer espanto!
– amar, amar, amar! repete-se à exaustão. o amor quantificado desqualifica o que se sente.
– a brutalidade imatura da litúrgica ladainha das relações…
– procurar no raso é desperdiçar o mergulho… é preciso perder o fôlego no raro profundo para se saber substância…
a cantilena do amor desloca-se na temporalidade dos quereres.
aqui ainda chove por enquantos…
entre o preto e o branco, o cinza mudo da oitava arte…

3 comentários em “emano da tela árida película

  1. “num silencioso jardim escutamos o colorido do cheiro a tocar os olhos sinuosos da primavera febril, semeados de veleidades de amores-perfeitos, velamos o que há de mais desigual em
    nós…”

    Não consigo parar de ler esse trecho, que coisa mais linda, confrade!

    O texto todo é um poema de sons, sentidos e sensações de dar inveja, e esse trecho é daqueles que dizem tudo, até o óbvio, mas de um jeito totalmente novo.

    Amei.

  2. “- procurar no raso é desperdiçar o mergulho… é preciso perder o fôlego no raro profundo para se saber substância…”

    que mergulhão!

  3. O que eu gostei desse texto, das junções de sentido em palavras diferentes, mais que ampliar o sentido, amplia o prazer da leitura.

    Bravo, Mestre!

    abraços,
    @paraquenomes

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