(h)ouve dor?

De um dia para o outro resolveu abrir mão de tudo aquilo que aparentava ser felicidade. Deixou a casa, os filhos, a esposa. A família toda. Ele tinha vontades, desejos encubados que somente em uma próxima vida conseguiria realizar. Mas quem disse que teria uma próxima vida? E assim sendo, ele tomou uma decisão.

Desmembrou, desmantelou, desgovernou todas as vidas que o cercavam. Por uma urgência.

Algumas décadas de matrimônio, filhos criados, frustrações acumuladas. Esse era o resultado daquele engodo que ele vinha arrastando por anos a fio em silêncio. Até agora.



Ninguém entendeu o que se passara. O que desencadeou a ruptura instantânea. 
Ninguém. Todos que achavam que o conheciam ficaram boquiabertos. 

Será que surtou?

Será que tem outra?

Será que esta doente?

E todos ao redor, sem exceção, inflaram de ‘serás’. Inutilmente. Nenhum seria respondido.



Vidas seguiram. Aquilo se tornou um passado enfadonho e medíocre. Com o tempo, tal qual todas as coisas, o interesse nos porquês diluiu-se com as rotinas particulares. 

Não para mim. Nunca aceitei aquilo. Nunca digeri. E decidi quebrar o silêncio. O medo. Questionei.

Juro, por tudo que é mais sagrado, nem em meus devaneios mais absurdos eu poderia imaginar qual teria sido o motivo desencadeador de tamanha revolução em uma pessoa. 



Disse-me ele: ‘Filho, não precisaria te responder, nem tão pouco explicar meus motivos. Mas vou. Não tenho muita certeza se serei simplista, ou se conseguirei te fazer me entender. Mas ouça com atenção. Pois foi isso que eu fiz. Escutei.
Escutei o que nunca havia escutado. Deliberei com meu inconsciente. Falei com meu Eu. Deitei e rolei com minhas intuições. Ri da minha apatia. E assim, mudei.

Tirei do ostracismo, da mudez absoluta, alguém que há muito tempo me pedia isso.

Meu amor-próprio.

E descobri que ele ainda me amava. O que fiz?

Apenas retribuí. À minha maneira. Dei ouvidos.’ 


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