pela boca olvido o sentido olhar

alguém sempre diz alguma coisa. ninguém se curva ao silêncio. algo sucumbe por dentro. alguma ânsia vem do estômago. nada que rasgue o trovão. nenhuma pulcritude que sorria a rosa. quase transborda de desertos paridos e de dilúvios supinos e expectantes bocejos e admonitórias madrugadas e gozos sucedâneos e sabotagens de si e venenos engolidos pelos ouvidos e saliva cuspida pela pele e quem sabe e talvez viscerais e dilatórias palavras. sem fôlego, indefinido eu, calado rebento solto num sobreviver mouco numa cadência qualquer dos lunares. uma sempre disse entre risível e o cinza, sempre acinzentado, cinzento, sempre chumbo dia após dia, vastas alamedas e atalaias de olhos vermelhos e armadilhas cambiantes. muitas são as dúvidas do verbo a romper a carne, tanto cicatrizo, pouco curado, num gemer de vírgulas mal colocadas, a abolir a dimensão dos atos e os indecifráveis átomos de sonoros cristais.

tudo é tão vago na memória das lágrimas…

5 comentários em “pela boca olvido o sentido olhar

  1. “alguém sempre diz alguma coisa.”
    Lembrei de um dos meus autores favoritos, Javier Marías, que diz que apesar de querermos não conseguimos calar nem depois de mortos, pois nossa vida ainda fala de/por nós para o que estão vivos.

    E aí então, depois dessa primeira frase, você disse tanto, de tantas maneiras, que certamente esse texto continuará dizendo muito, por muito tempo.

    Adorei!

  2. e ao vagar por teu texto, penso no rochedo no meio do caminho, e nell mezzo del camin dou meia volta pra vaguear, a onda ainda aonde, e perdido entre vírgulas que gemem, saio à francesa, porque alguém me disse que, as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

    abraços, mestre

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