Personagens imperfeitos e pessoas perfeitas

Já li/ouvi algumas vezes que ao escrever devemos criar personagens que não sejam muito certinhos, perfeitos demais, porque os leitores gostam de se identificar com quem está na história e para isso é preciso que o personagem tenha defeitos e incongruências, assim como todos nós. Sempre concordei com isso sem pestanejar, mas hoje me ocorreu um pensamento novo: é engraçado querermos personagens imperfeitos e, ao mesmo tempo, exigirmos que as pessoas “reais” (incluindo nós mesmos) sejam perfeitas. No amor isso fica muito claro. Queremos histórias de livro, de novela, de cinema, e acabamos não vendo a delícia de um amor de verdade, cheio de erros e desencontros, mas com momentos de sinceridade e companheirismo que livro nenhum consegue criar. Até o conceito ‘amor de verdade’ é estranho, qual o critério para defini-lo? Tem que ter reviravoltas, cenas de ciúme, declarações mil? Não sei dizer. Sei que percebo que muitas vezes nos perdemos nas historinhas que inventamos pra justificar um amor, quando na verdade a única razão necessária para que ele exista é ser sentido. Amor real não é, necessariamente, aquele que tem final feliz. Mas, para que seja real é preciso que acreditemos nele, é preciso construí-lo, cuidá-lo, o que não quer dizer encaixá-lo na história que imaginamos, pelo contrário. Viver um amor, criar um amor, é aceitá-lo como ele se entrega a nós, como o outro o vive conosco, e como nós vivemos com esse outro que nunca cabe bem no papel que queríamos lhe dar. Porque se viver um amor de livro parece muito bom, melhor ainda é viver um amor e descobrir que dele é possível escrever uma grande história.

7 comentários em “Personagens imperfeitos e pessoas perfeitas

  1. Uia, guria, tu tens toda a razão. A gente ama se identificar nos textos, principalmente, nos que vocês fazem, mas não vemos muita magia no amor normal. Agora, vou ficar pensativa pelo teu texto. Adoro!
    Nhac pra ti, destempero toda temperada!

  2. Que bela reflexão, Cá!

    Acho que essa história de “verdadeiro amor”, se não for pleonasmo, tem a ver com a gente fazer as pazes consigo mesmo, e deixar que o outro seja quem ele é, ou quem ele quiser ser. Acho que tem a ver com fazer as pazes com o desejo do Outro, dizendo lacanianamente. (todo advérbio mente, disse Lacan…rs)

  3. Oi, menina do amor.
    Que saudade que eu tava de ler um pouquinho das suas letras. Essas, que me calam, e que brincam com as minhas emoções.

    Sobre esse texto, eu nem sei comentar. Já meus sentimentos, fazem tatuagem aqui.

    Obrigada por escrever. Apenas.

  4. Cá, teu nome é sensatez!
    (Mas o mais legal é conhecer você de verdade, além-escrita, e saber das tuas lindas e humanas insensatezes!)

    Beijo!
    Amei o texto.
    (Identificação mil…)

    (F)

    Tá.

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