História de um amor comum

Clara olhou para Rodrigo e se viu em seus olhos. Gostou mais da Clara que via nos olhos de Rodrigo, do que da Clara que ela via no espelho. Quebrou o espelho e ficou com os olhos do moço. Rodrigo beijou Clara e se perdeu em seus lábios. Já não tinha mais a exata dimensão do seu corpo quando estava com ela. Clara, ao contrário de Rodrigo, encontrou o seu corpo nos toques do amante. Seu corpo, tão esquisito, tão perdido e sem contorno, ganhou forma. Soube naquele momento, que moraria no abraço de Rodrigo.

E todo dia era assim. O amor do casal era radiante, os amigos se irritavam com a melação dos dois, as amigas morriam de inveja daquele pôr-do-sol ambulante que era o casal. Clara não era ciumenta, Rodrigo era, mas tudo bem. Clara tinha TPM, Rodrigo ficava louco da vida, mas tudo bem. Rodrigo passava horas no Playstation, Clara reclamava, mas tudo bem. E tudo ia bem, recheado de amor, algumas DR’s, algum carinho, bastante tesão.


Eis que um dia Rodrigo olhou pra Clara, mas não a viu. E aí Clara deixou de se ver nos olhos de Rodrigo. Se afastaram na tentativa de entender o que estava acontecendo, não entenderam e não tornaram a se aproximar. O amor acabou. Ninguém entendia o porquê, e na verdade nem Rodrigo e Clara sabiam explicar. “Foi a rotina”, diziam. Mas lá no fundo sabiam que os fins, assim como os começos, nem sempre têm explicação. Porque o amor e os sonhos são como a vida: a gente não sabe como começa e nem como termina. Só nos cabe aproveitar enquanto dura. E se nós, humanos, somos finitos, por que raios os amores seriam eternos? Sorte nossa que a eternidade pode ser inserida na intensidade, e não no tempo. Aí, sim, todo amor pode ser eterno. Sorte nossa também que o amor se metamorfoseia. Aí a gente pode deixar de amar de um jeito e passar a amar de outro, e depois de outro, e depois de outro. Mas sem romantismos, há amores que não amam.





13 comentários em “História de um amor comum

  1. Que lindo, que lindo!
    Teus textos tocam a alma da gente, fazem a gente degustar da leitura, como se fosse um doce. E tu me matou aqui:
    “E se nós humanos, somos finitos, por que raios os amores seriam eternos?”.
    <3

  2. Muito bom!! Parabéns, uma delícia de ler, adorei! Bem isso mesmo.. enquanto mortais nada é eterno.
    beijos.

  3. Texto muito bom *-*
    “Sorte nossa que a eternidade pode ser inserida na intensidade e não no tempo.” Disse tudo

  4. Que texto magnífico! Especialmente o último parágrafo, tão verdadeiro e tão duro. Me reconheci muitas vezes nessa história de amor.

  5. Que texto magnífico! Especialmente o último parágrafo, tão verdadeiro e tão duro. Me reconheci muitas vezes nessa história de amor.

  6. O que eu faço com você, Ana?
    Toda vez que venho aqui sinto algo muito forte. Você desenha imagens em meu cérebro, muitas, e hoje vi, atônita, uma das histórias de amor mais bonitas – porque real. Comum.

    A gente acha que não, mas no fundo queremos sim um amor eterno, um para sempre. Absorvemos o amor de maneira tão diferente, encantadora recíproca e transitamos por ele tragicamente, por vezes, mas uma coisa é certa: há algo desse amor que, mesmo quando acaba, fica. Eterno. Em algum lugar, dentro da gente.

    Quem foi mesmo que disse que existe o para sempre? E quem disse que não existe?

  7. Se nós somos finitos, por que os amores seriam eternos?

    Sorry, Rodrigo. Sinto muito, Clara.

    Concordo com tudo, tudinho! Ainda que eu busque me eternizar num amor.

  8. Pode soltar um palavrão né? PUTAQUEPARIU.
    Ufa! Tava engasgado desde a primeira vez que li. Lá vou eu ficar ate sexta a noite quebrando a cabeça pra escrever algo ao menos interessante depois desses todos que li. 🙂

  9. Sua abordagem foi tão linda e ao mesmo tempo tão precisa e inspiradora, que desde segunda-feira fui tomada por um “desassossego” maravilhoso, que me pegou pelas mãos e me levou (de volta) para o que existe de melhor em mim.

    Obrigada, muito obrigada, por esse presente.

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