Menina do espelho

         Olhou-se no espelho e tomou um susto. Olhos sorridentes a encaravam. Pensou: onde eu estava esse tempo todo enquanto a mulher de olhos tristes dava lugar a essa menina de sorriso tão doce? Não sabia nem que era capaz de sorrir assim. E como era possível que o tempo passasse e, ao invés de envelhecer, aquela mulher tivesse se tornado, enfim, uma menina? Não fazia sentido: o tempo havia passado, ela tinha sofrido, chorado, perdido. Perdeu pessoas, sonhos, toda uma vida perfeita e exaustivamente planejada. Ela lembrava perfeitamente de tudo isso, como era possível então que agora encarasse aquela menina lhe sorrindo no espelho?
Foi aí que ela se lembrou de outra coisa. Depois de tantas perdas, ela finalmente tivera coragem de se perder também, abrir mão do controle e das teorias que sempre a sustentaram. E foi onde se encontrou, ali mesmo onde se perdeu, sem ter a menor ideia do que estava fazendo ou sentindo. A palavra felicidade saiu de sua boca, mas não era possível. Desde quando felicidade é essa coisa louca e estranha, não planejada, no meio de mil incertezas e nenhum tipo de garantia? Sempre acreditara que a felicidade dependia da conjunção correta de vários fatores. Mas não conseguia evitar. Estava apaixonada, feliz, vivendo uma relação completamente fora de todos os seus padrões. Às vezes se assustava, tinha vontade de fugir, e chegava até a correr um pouquinho. Mas sabia que não adiantava mais: a felicidade sempre lhe encontraria nos olhos sorridentes da menina do espelho.

11 comentários em “Menina do espelho

  1. Carina

    Um texto para confirmar o que já disse algumas vezes: Você escreve e acabo vendo muitos pedaços meus enroscados em cada vírgula.

    Outro dia até escrevi algo nesse sentido. Espelho que não reconhece certos sorrisos.

    Queria comentar uma porção de coisas, mas para não ficar “falando demais”, só vou agradecer. Vejo esse texto como um presente. Obrigada por sempre arrancar reflexões, algumas lágrimas e sorrisos como hoje.

    Estou rindo aqui. Rindo da possibilidade de ser tão feliz apenas deixando a garotinha sorrir.

    Que não tenhamos receio de deixar ela mostrar a face.

  2. Babando

    babando mais um pouco

    babando mais ainda

    “E como era possível que o tempo passasse e, ao invés de envelhecer, aquela mulher tivesse se tornado, enfim, uma menina? “

    babando.

  3. Ah, Carina!!!

    O que é esse final? A felicidade sempre lhe encontraria nos olhos sorridentes…

    Fiquei pensando aqui: é verdade. Felicidade é uma coisa curiosa! Sempre nos encontra com sorrisos largos. Ou seriam os sorrisos prenuncios de que ela esta chegando?

    Tanto faz. Faz bem.
    Saudade de ti!
    Beijo!

  4. tem gente que acha que falta de ambição é defeito mas desde que me vi livre de qualquer ambição e resolvi abraçar a minha vida como ela é, me sinto muito mais feliz, leve e solta. sem planejamentos, sem total controle…

  5. Amei o texto… Achei muito profundo.
    “Depois de tantas perdas, ela finalmente tivera coragem de se perder também, abrir mão do controle e das teorias que sempre a sustentaram.”
    Parabéns!
    beijo

  6. Carina,

    que linda reflexão sobre romance,
    felicidade e perda de controle.

    me fez refletir. eu aqui , com minha mania de controlar tudo, permaneço de coração vazio.

    quero a menina no espelho sorrindo pra mim.

  7. Carina, querida !!! Obrigada pelo presente! Hoje, faço anos, sou sexagenária, pode ??? Mas aí, veio você e me descreveu em seu texto. Mulheres se conhecem . Algumas mulheres se reconhecem… AMEI !!!Parabéns pra você também !!!!!!

  8. Carina-menina-mulher-do-amor,
    que texto perfeito!

    Coisa linda esse dar-se à luz.
    Momento mágico onde se deixa um mundo de acomodações para romper o próprio ventre e deparar-se com as infinitas possibilidades de uma nova vida. Corpo ilimitado e etéreo, desconhecedor de limites e de senões.

    Conheço uma mulher de olhos tristes que está grávida. Vai dar à luz a ela mesma. Os olhos continuarão tristes, é verdade. Mas o sorriso, ah, esse vai ser feliz e doce, como nunca.

    E a mulher-de-olhos-tristes te agradece infinitamente por cada palavra que escapa desses teus dedinhos de amor, porque a ela fazem muito bem.

  9. Carina, você me fez pensar tantas coisas… Acredito que todos nós, em algum momento da vida, julgamos ser possível administrar e conduzir as coisas, de maneira absolutamente cartesiana, porque isso pareceu o mais sensato e equilibrado. Mas arrisco dizer, também, que na maioria dessas tentativas, vimos a “derrota” da objetividade.

    Que sorte a nossa, não?

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