Quase nada

Ela sempre teve esse hábito desnecessário de ser inconveniente. Sempre se fez parecer mais do que é. Sempre foi teimosa. Sempre colocou-se acima do bem e do mal. Senhora da razão. Indiscreta em suas falas. Nunca se furtou em me diminuir perante os outros quando queria total atenção. Anos de relacionamento espelhado em aparências. Anos de amores juramentados apenas pelo bom e (nem sempre) bem feito sexo. Anos ordinários de semelhanças criadas. 

Até eu me cansar. 

Até eu descobrir que aquilo era pouco, ou quase nada para mim. 
Até o dia em que encontrei alguém. 
Fui do vinho para a água. 
Sai daquela vida onde diariamente estava embriagado. Onde cada manhã era uma ressaca indigesta. Onde o que definia uma estabilidade eram os anos e não o amor. 
Vim para água. Limpa. Transparente. Que me sacia. 
Relação que me refresca. Pura.
Nunca desejei olha-la com pena, mas tenho certeza que aquele encontro a noite não fora inesperado. Se bem a conhecia, ela planejara tudo meticulosamente. 
Sempre tive uma rotina detalhada. Minunciosa. Almoço, café, chopp, bares, sempre os mesmos. Sempre a mesma mesa, mesmo garçom. Sou desses. E ela apareceu.
Dissimulando uma alegria radiante. Veio acompanhada, fez questão de me apresentar o rapaz. Sentaram comigo, forjaram uma intimidade irreal, vez ou outra ela deixava-o desconfortável; tal qual fazia comigo. 
Eu por dentro ri. 
Meu telefone tocou. Era minha esposa. Me despedi e desejei verdadeiramente que ela fosse feliz. Com aquele, com outro, outros. Tanto faz. Mas, que fosse feliz. A sua maneira.

9 comentários em “Quase nada

  1. Oi Claudio,

    Quando você avisou do texto, eu já tinha passado por aqui…rs.

    Repetindo, gostei demais, muito mesmo, do seu enfoque. Absolutamente imprevisível e, mais do que isso, surpreendentemente “matador”.

    Sabe que, algum depois, o seu texto me remeteu a um filme chamado “Two Lovers”, que figura entre os meus prediletos. Acho que associando as ideias, dá um bocado de boas “trouxisses” pra se pensar.

    Abraço,
    Monica

  2. Oi Monica, não tinha notado que era a mesma daquele comentário! Acho que as fotos estão diferentes. Mas sua sugestão esta anotada. Como bom cinéfilo que sou, vou procurar ver depois, com certeza comentarei contigo. Obrigado pelo retorno!

    Abraço,

    Cláudio Marques

  3. Imagina, eu que agradeço.

    Quanto ao filme, a princípio pode parecer meio “tolinho”, até por conta da despretensão, e à parte das preferências entre o Joaquin Phoenix ou a Gwyneth (claro que ele é muuuuuuuuuuito mais interessante…rs), a história tem umas sacadas sensacionais.

    Enfim, espero que você goste, e se não, fica valendo pela sessão pipoca…rs

    Abraço,
    Monica

Os comentários estão fechados.