desconfiemos (lapso possível) que tudo seja verdade, até mesmo as ilusões que inventamos para nos acariciar e aplacar ansiedades, angústias, descaminhos, encontros impossíveis e discordâncias imaginárias… que toda teoria, juízo, tese, presunção, tudo que emana, tudo que sugere ou reclama um nome, seja somente a pungente nudez que nos anima… e…

… digamos que ele esteja sentado. a mesa pequena é para dois. apenas. notemos que bebe. meia garrafa, três vazias. cálice solitário manchado de embriaguez. constatemos, ainda, que o lugar é diminuto para a quantidade de objetos a ocupar os espaços. vazios sucintos espalham-se ao redor. atentemos que palavras não há. agora reparemos os pensamentos. “maldita carne que tenta… peco… peco sim… se é que há algo a ser pecado… porra! quem é ela para recriminar alguém? a mim… logo eu que tenho a pureza… séculos… orações… altares… rituais viscerais de fé, desapego e martírio… hipócrita… fariseia… (tosse, seguida de pigarro) não ocultarei meus desejos atrás de hábitos nefastos… nem faustos… nunca… me expulsar assim da sua vida… sem mais nem menos…”. (uma sirene ocupa o ambiente e se perde na distância). ouçamos o cair do líquido na taça. um gole seco. tinto. lemos no rótulo da botelha em letras douradas sobre fundo negro: “carménère – 2010 – d.o. colchagua valley, chile…”. experimentemos uma lembrança. algo já visto. um gosto. um sentido. uma lágrima sem rosto perante o espelho. (alguém no décimo-quinto andar aperta o térreo. o elevador desperta do sono mecânico). observemos, neste instante, o relógio. ponteiros estrábicos apontam em direções opostas. achamos estranho, pois não existe nitidez. (na peça ao lado, alguém solta um peido. ato contínuo, outro alguém em outra localidade, gargalha). percebamos também, quando entramos no banheiro, o que está escrito na parede: “a grande merda é que tu é um bostinha e não merece tocar a bainha do meu vestido”. notemos abaixo deste exemplar epitáfio, a assinatura de um beijo com frios lábios de batom. damos de ombros e a descarga. (lá fora uma mulher sai de um prédio. é acolhida pela outonal noite sem estrelas de um lugar-comum. dobra a esquina…). descortinemos, sempre hipótese, o tanger bordando destinos, a especular mistérios… desavergonhados de nós.

4 comentários em “desconfiemos (lapso possível) que tudo seja verdade, até mesmo as ilusões que inventamos para nos acariciar e aplacar ansiedades, angústias, descaminhos, encontros impossíveis e discordâncias imaginárias… que toda teoria, juízo, tese, presunção, tudo que emana, tudo que sugere ou reclama um nome, seja somente a pungente nudez que nos anima… e…

  1. No início do texto, foi impossível não me lembrar da estátua de Fernando Pessoa em frente ao café A Brasileira, em Lisboa. Nada a ver, eu sei. São coisas da minha memória.Enfim, Denilso, é o caso de se dizer que o cinema não sabe o roteirista que está perdendo… Ou já sabe?

  2. Denison, como diz a Flah, que vontade de te bater!
    Absolutamente genial o texto, totalmente visual, mas ao mesmo tempo cada palavra dele é imprescindível.
    Amei!!

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