Feitos de amor

No auge dos meus 16 anos já era um romântico.
Tinha minhas preferidas, conseguia me ver em cada letra de Chico. Cantarolava “Quem te viu, quem te vê”, “Todo Sentimento”, sempre com teu nome no meio. Sempre.
Eu, franzino, rosto juvenil, nada de especial.
Enquanto os outros rapazes dedilhavam violões, cantavam baladas, ganhavam olhares, eu chorava na flauta com Ernesto Nazareth, contava compassos.
Dedilhava você intimamente, te previa por dentro e ia mexendo e remexendo em todos seus acordes.
Acordava com meus sonhos. De lá, um dia voce sairia. Para os meus braços, ou do mundo.
Lia versos.
Era um apaixonado. Um bobo.
Tentei gostar das garotas populares. Por pouquíssimo tempo, minhas chances obviamente eram ínfimas. Meu empenho era quase nulo.
Tentei então as nem tão populares. Me empenhei.
Tentava aparecer, tentava me fazer ser notado.
Em vão.

Fui virando amigo de todas. Fui perdendo toda e qualquer chance de um dia concretizar aquele amor idealizado por todos os adolescentes.
Todas ja tinham amado.
Um amado por ano. Ou dois algumas vezes.
A intimidade da amizade, foi quem me salvou. Quem me consolou. Principalmente depois daquele último dia de aula, quando minha mais querida paixão juvenil chorava e se lamentava comigo
Pedi a ela um favor.
(não, por mais que eu desejasse, não era o primeiro beijo)

Amiga, me responda com sinceridade:
_O amor, com que se parece?
_Ele machuca, dói, dilacera algo que você diariamente não notaria que esta ali. O amor te faz perceber isso. Muitas vezes te maltratando. – respondeu ela – soluçando repetidas vezes.

Minha resposta foi quase que instântanea.

_Minha vida também dói, exatamente desta maneira. Isso me dá uma unica e perfeita explicação.
Sou feito de amor, só pode.

(ao fundo ela chora, aparentemente me ignora e [me] questiona: _como ele não quer mais nada comigo? _sou tão feia assim? _sou…..)

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5 comentários em “Feitos de amor

  1. a complicação do amor, algumas vezes, penso eu, é a falta de ousadia de uma ou ambas as partes, causada pela falta de confiança, e aqui vc ilustrou belamente um desencontro que foi vítima disso.

    abraços,
    @paraquenomes

  2. Cláudio!

    Que belezura de texto!

    Nós, trouxas, somos feitos de amor.

    Ah, que duro o destino.

    Clap, clap, clap!

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