Labirinto


Clara passou meses preparando metodicamente um mapa e provisões antes de entrar no labirinto. Chegou então o dia em que ela acreditou estar finalmente preparada. E entrou. Um pé após o outro, e o mapa bem firme nas mãos. O mapa indicava que virasse a esquerda após ver uma macieira. Assim o fez. Mas o que viu naquele momento não estava desenhado no mapa. Um homem estava sentado, as costas apoiadas no tronco da árvore, lendo. Clara parou de súbito; não sabia o que fazer. O homem levantou os olhos do livro e pousou-os em Clara. Ela sentiu-se estranha, como se estivesse sendo vista pela primeira vez. O homem disse alguma coisa, e Clara achou muito esquisito que ele falasse cantando. Será que ela estava sonhando? O homem repetiu a frase: “Meu nome é André, e o seu?” “Clara”, ela respondeu. O homem, André, pôs-se a falar novamente, mas Clara não conseguia acompanhar. Estava muito confusa com toda aquela cantoria, e aquele olhar que não a deixava respirar. 
Depois de algum tempo percebeu que André não mais falava, mas a olhava de um jeito que a deixou ainda mais nervosa. André levantou-se e Clara afastou-se. Ele abriu a boca e ela se concentrou com todas as forças para ouvir o que ele dizia. Entendeu que dizia que ela não precisava temê-lo. Mas seu coração dizia que precisava, sim. Lembrou-se de uma frase que dizia que a felicidade se esconde no imprevisto, e aquele poderia ser um exemplo. Não é que Clara não gostasse de felicidade, mas felicidade, para ela, era viver de acordo com um roteiro pré-estabelecido e, por isso, plenamente entendido. Mesmo que isso significasse sofrer. 
André olhava, sorria e falava de um jeito que Clara nunca tinha visto. Ele parecia tão… vivo. Surpreendente. Imprevisível. Clara não entendia porque continuava voltando, não gostava nem um pouco de surpresas, e decidiu que dessa vez quando saísse do labirinto não iria mais voltar. Ela tomou essa mesma decisão muitas vezes, mas acabava sempre voltando. Depois de algum tempo indo ao labirinto todos os dias, Clara começou a se sentir mais tranquila. André olhava, sorria e falava do mesmo jeito vivo, mas ela já começara a encontrar certos padrões. Sentia-se segura perto dele, pois achava que já o conseguia prever. 
Mas é impossível prever a vida. E, em um dia como outro qualquer, André, ao terminar a leitura de um poema, fechou o livro, levantou os olhos, e os pousou em Clara. Ela, como sempre fazia, sustentou o olhar, e sorriu. Ele segurou o braço dela, o que era normal. Em seguida, aproximou-se mais e puxou-lhe os cabelos em gestos suaves e repetidos – isso também era comum, apesar da incomum descarga elétrica que Clara sentia percorrer seu corpo nesses momentos. Então André perguntou no seu tom de voz que é quase música: Você gosta de ser assim tão bonita? Clara enrubesceu e sorriu, envergonhada. Olharam-se em silêncio, um silêncio feito de olhos sorridentes, esperança e sonhos. E, entre sorrisos e sonhos, André tocou o rosto de Clara. E a beijou. Foi aí que tudo acabou e começou, no mesmo instante. Todas as certezas, planos, previsões e estudos de Clara estavam condenados. Ela sabia que nada mais daquilo importava. Ela queria surpresas. Queria desejar sem saber o porquê, sem nem saber o que queria até que fosse tarde demais e ela já o tivesse. Ela não queria mais encontrar a saída, alcançá-la em uma única e curta travessia – sem desvios ou obstáculos. Ergueu as mãos e deixou o vento levar o mapa. Desistira do caminho mais curto. Queria continuar perdida enquanto pudesse.

10 comentários em “Labirinto

  1. você largou o mapa… e o fio de novelo do caminho que já percorreu?
    Enquanto não largarmos esse, que nos prende ao passado, não nos perderemos nunca no labirinto do amor.

  2. no início pensei numa simbiose de teseu e chapeuzinho vermelho, para depois cair nas mãos de alice… mas foi só no final que me dei conta que estava falando sobre todos nós e nossos labirintos.

  3. Não dá para planejar tudo a todo instante, a gente acaba mesmo sendo pego por essa vontade do imprevisível. Amei o texto

  4. Carina,

    Li os textos ontem, mas quis escrever o meu antes de comentar.
    Adoro tudo o que vocês escrevem por aqui e adoro que o mesmo tema tenha tantas caras, graças ao estilo de cada um.
    O seu é impressionante e eu poderia ler páginas e mais páginas, todas com gosto de quero mais!

  5. Estava com saudade tambem de ler teus textos nesse estilo. Prendeu-me em toda a sua extensao. E me perdi. No teu labirinto. Mas, foi só depois de reler, que pude encontrar o caminho de volta.

  6. No livro One Day, do David Nicholls, (um dos meus prediletos), existe uma passagem muito simbólica em um labirinto.

    Perder-se, encontrar, encontrar-se…Perder. Ganhar. (xii, acho que me perdi…rs)

    Amei o texto.

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