relicário regresso de um vilarejo retiro de mim

já não tenho mais os medos e os remorsos, só aquele revir da janela a ciciar os acinzentados fragmentos de passagem das noites… o erigir do tempo a lacerar escolhas, as rasuras a perpetuar palavras na carne funda, a recusa da ablução, as gravuras silentes do cordel… as horas a mudar de cor. a enrugar paredes. a secar correntezas. a arrufar línguas. a preguear palavras na pronúncia de gelhas pelo corpo. encerro-me distância na cordura semântica da folha alabastrina… entre margens semeio bosques irrequietos e salsos labirintos líricos. os verbos que me sujeitam, angustiam-me predicados. as palavras que ainda existo me sobrevivem de dúvidas… rebenta-me espantos a espada úmida de púrpura dose. o manejo rumo traça goles de fria luminosidade. teu navegar de cegos lampejos é visceral… já o meu é deriva de mundos, um sonhar-me calado, mirante fugidio de outroras, vivente recluso de amanhãs, aconteço-me… diante a ruína que avança e verga e desatina, canto-me o mergulho doido no abismo e danço-me pelos recônditos do vento. meu corpo é pássaro… a vida quis-me assim… um beijo alígero.

5 comentários em “relicário regresso de um vilarejo retiro de mim

  1. Há menos sonorizações fonéticas nesse texto do que as que encontro normalmente no seu trabalho. Na minha opinião, isso é ótimo. Agora as metáforas ganham mais claridade e instigam o leitor a prosseguir por aqueles campos semânticos inusitados que eu já te falei que só existem no que você escreve. Do roteirista de cinema, “só aquele revir da janela a ciciar os acinzentados fragmentos de passagem das noites”. No mais, um poeta que pensa sobre si mesmo através de sensações (quem dera, se comigo fosse assim). Chega. O Otto Maria Carpeaux que baixou em mim acaba de abandonar o meu corpo. Às sextas, isso de vez em quando acontece. Abraço.

  2. jorge, tens toda razão. e fico contente em poder receber o retorno de um texto, como este feito por ti. pois venho pensando na forma e experimentações como amadurecimento.
    e salve otto maria carpeaux. grande abraço.

Os comentários estão fechados.