Isso que eu chamo de angústia, você chama de amor

Não sei o que é amor, querida. Sim, acho que me apaixonei por você. Não, sem essa de friozinho na barriga, perna bamba, borboletas no estômago e babaquices desse tipo. Você sabe, chega uma hora em que a gente tem que sossegar, a minha gastrite já estava se agravando e a vida de solteiro me fazia comer e dormir mal. Então escolhi você pra me fazer cafuné, me incentivar a comer legumes e a dormir uma noite inteira de sono. Como assim, por que você? Porque sim, oras! Tsc, ah, lá vem você com essa síndrome-de-castelo-rá-tim-bum! Porque sim é resposta, sim! Porque sim é resposta de macho a essa baboseira de amor! Tem coisas que eu não quero explicar, simplesmente porque os pontos de interrogação não fazem nem cócegas em mim. Tá, ok, vou tentar. Acho que te escolhi porque você era gostosa. É, com certeza foi isso. Me apaixonei quando a sua saia me sugeriu que a monogamia podia ser legal. Ah, e também porque você não era vagabunda. Não sou machista, você sabe disso, mas, né… não vou te explicar o óbvio.  E tinha também o seu olhar, é, você me olhava com uma cara meio boba. É isso, o seu olhar de idiota me sussurrava que eu era um cara legal, e eu gostava disso. Parecia segura essa coisa de me envolver com você. Era uma sensação tranquila, o jeito que você mexia o seu corpo me fazia pensar que você gostava mais de mim do que eu de você. Eu gosto de controle, desde o da tevê até o da relação, e o seu olhar bobo me dizia que era eu quem estava com o controle remoto do nosso relacionamento. Então me apaixonei por você, era o meu jeito de me apaixonar. Quando eu soube disso? Putz, mas você faz cada perguntinha medíocre! Mas tá, a gente combinou, eu vou responder. Hum…acho que…É, eu soube que estava apaixonado quando percebi que depois do sexo eu não torcia pra você ir embora. O dia em que eu percebi que da minha boca pulavam palavras te pedindo pra ficar, pensei “fodeu, é ela”. Daí a gente ficou junto e foi bem feliz, se é que o significado dessa palavra existe. E agora, passados tantos anos, percebo que o seu olhar mudou. Suas pupilas, que eram tão tagarelas quanto você contando do seu dia, das suas amigas, da sua família… simplesmente se calaram. Quer dizer, eu me acostumei a achar que você me adorava, e acho que parei de prestar atenção nos seus olhos. E agora, de repente, os seus olhos são mu(n)dos. Sim, é verdade, você continua dizendo que me adora, me afagando a cabeça pra dormir e até está deixando os seus cabelos crescerem pra me agradar. Eu não sei dizer o que mudou… Tento pensar no que você diria, se pudesse entrar dentro da minha cabeça e olhar os pensamentos que eu não consigo dizer…E olha, acho que eu não tinha me apaixonado por você porra nenhuma. Eu estava demasiadamente interessado em mim mesmo pra olhar pros seus olhos, e via apenas o meu reflexo neles. Pqp, eu estava apaixonado por mim! Lembro de uma viadice que você disse outro dia, de que olhar e ver não são a mesma coisa. E oras, antes, eu só olhava os seus olhos, agora eu os vejo.  Me angustia ver que há tantas coisas nos seus olhos, me angustia que você não possa me dizer tudo sobre você, me angustia saber que eu não posso te satisfazer plenamente, me angustia que você exista para além de mim… E isso que eu chamo de angústia, acho que é o que você chama de amor. Sério que você acha que esse treco é bom? E depois quer me convencer de que você não é louca. Só pra tua cara mesmo…

6 comentários em “Isso que eu chamo de angústia, você chama de amor

  1. [Só pro teu caro, no caso.]

    Narciso e Narciso > Narciso e Eco.

    Muito bom. E Caravaggio também acha.

    A primeira parte foi pra mim, a segunda foi pra todos os homens e mulheres que começam a sentir pensando e não sentindo. Se você tem que organizar o que sente, é pra poder se amar enquanto ama, porque o ego não daria outra resposta, mas amor é negar-se e possuir o outro, engolir o outro. Negação no sentido “positivo”, porque você se vê melhor no outro, então enfia ele dentro de você [OUI-É] e aí tá tudo bem. Mas a cabeça não é o melhor caminho e as pernas não entrariam nem pelo ouvido, tem que ser mais fundo [porque o buraco maior é sempre mais embaixo]. Há que se falar em um parto normal que fica – ou naquela de rasgar a pele e ir pela barriga. São borboletas mais reais no estômago, não tão bobas quanto o olhar sincero de quem ama. Porque olhares não vistos não passam de? “É isso, o seu olhar de idiota me sussurrava que EU era um cara legal, e eu GOSTAVA disso.”

    Falei demais pra gastrite e pro amor nesse fim de almoço e começo de reflexão,
    então um pouco de café, por favor.

    E obrigada!

    http://www.youtube.com/watch?v=4sAbW0ONRBU&feature=fvwrel 😉

  2. É que o amor tem dessas coisas. Dessas ações que a gente se deixa embolar por saber prazeroso. Das desculpas que viram motivos de conquista. Dos olhares que são acarinhados pela simples imagem do outro. O amor tem dessas coisas de se encantar com “a beleza do erro, do engano, da imperfeição”, como Zeca Baleiro canta. O amor, a angústia, também.

    Mas ainda assim, nada como você dando vida aos sentimentos em palavras que não se sabe igualar. Ninguém, Ana, faria diferente, sem tornar banal. É que você muda o cenário, inventa ritmos perdidos, resgata cores e climas, e tudo se torna único. Coisa tua, só tua.

    Texto lindo. Lindo.

    Meu beijo.

  3. “E isso que eu chamo de angústia, acho que é o que você chama de amor.”

    O texto inteiro é maravilhoso, mas essa frase… Só ela já valeria por mil outras linhas.

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