Não decifra-me, ou te devoro.

Mulher misteriosa. Pleonasmo. O desejo feminino é o maior desencadeador de pontos de interrogação do mundo. De alguma forma, acho que toda dúvida humana parte daí. E pra não assustar a humanidade, o corpo de uma mulher está sempre a se vestir. É claro que em tempos de “Marcha das Vadias” esse vestir não necessariamente é de roupas de tecido. É um vestir que se tece de culpa, de pudor, de coragem, de vergonha, de próteses de silicone, de tatuagens, de depilação, de roupas, de gordura, de inveja. Mulheres sempre estão a se vestir, apenas o amor as despe. A gente tem o hábito de pensar que nós, mulheres, conquistamos muitas coisas, e que a máquina de lavar roupas e os anticoncepcionais nos deram direito ao sexo sem amor, e que isso mudou tudo, que agora temos as tais das periguetes (palavra essa, aliás, até já incorporada pelo dicionário!)  andando semi-nuas pra lá e pra cá como se não sentissem frio, que o sexo não é mais um tabu, que ver corpos nus se tornou um hábito recorrente. Eu acho é que muito pouco mudou. É claro que nós, mulheres, mudamos radicalmente de papel na sociedade, causando uma mudança também nos homens prudentes, mas acho que os corpos nus e o sexo ainda são tabus nesse mundo. Vemos vários corpos sem roupas diariamente nas ruas, nas tevês, e no carnaval, então, nem se fala. Mas corpos nus não são a mesma coisa que corpos sem roupas. Estamos habituados a ver corpos femininos vestidos de gostosona, mas imagina só que transtorno seria vermos corpos cheios de celulites, estrias, sem bronzeado, com pelancas, gorduras… Diante disso, a gente só pode lidar com o humor. Talvez o corpo feminino seja apenas um escudo para a alma feminina, e essa, cega àquele que a olha. Então se tem uma coisa que parece ser importante para homens e mulheres, é proteção. Vivemos sempre a nos proteger. O corpo feminino por seus adornos, àquele que olha para a alma feminina, pelo amor.
Imagem: Lucian Freud

4 comentários em “Não decifra-me, ou te devoro.

  1. Belas observações, Aninha.

    Gostei especialmente da frase “Mulheres sempre estão a se vestir, apenas o amor as despe.”

    PS: Sempre a leio, embora nem sempre comente. 😉

  2. Mulheres… Tantas em uma só!

    Somos múltiplas e por isso representamos com privilégio a unicidade de sentimentos…

    Adorei, Ana! Gosto bastante dos seus escritos e de seus tweets!

    Beijos!!

  3. Tenho a sensação de que o desejo só pode existir atrás do véu, precisa de um olhar enviesado, ou ser observado como reflexo do espelho. Olhar diretamente pra nudez do outro não causa desejo, causa medo. A falta assusta, e daí tentamos nos proteger.

    Ainda tô pensando mil outras coisas, mas por enquanto vou ficar por aqui.
    Adorei as reflexões, Ana!

  4. Ai Ana, tanto tempo que não comentava, mas tal qual a Flah, sempre te leio.
    Mas escrever pra voce é tão dificil. Tuas letras sempre tão certas, tão analisadas. E nessa semana não foi diferente (ainda bem)
    E comentando vou me inspirando e começando meu texto. Então paro por aqui, senão sabado fico em branco!

    Beijo

Os comentários estão fechados.