Não há aparência capaz de enganar a angústia

A maioria das músicas escolhidas para tema aqui na Confraria eu já ouvi antes de ter que escrever sobre elas. Mas ao escutá-las pensando no texto, alguma dimensão nova sempre me surge. No caso de “Aparências”, o que me veio foi como o parecer, ao contrário do que se possa pensar à primeira vista, é mais forte hoje do que na época dos nossos avós. Naquela época eles permaneciam casados baseados em obrigações morais, preceitos religiosos, necessidades financeiras. Hoje, teoricamente, isso aconteceria bem menos, e até acho que realmente seja assim, vide o alto número de divórcios e separações. Porém há algo que acontece hoje que me causa ainda mais espanto: relações vividas mais para os outros do que para si não por necessidade financeira, ou por submissão religiosa, nem para estar dentro do que se chama moral, mas para parecer feliz. Não importa se seu namoro vai bem, desde que você bote uma foto linda do presente que ele te deu no facebook. Não importa que ela tenha te traído enquanto você estava trabalhando, desde que ela tuíte o quanto te ama três vezes por dia.

Aqui, lembro-me da frase do meu confrade Salviano: “hoje, o amor está mais no que vemos – via redes sociais – do que no que sentimos”, pois dela me veio outro pensamento, que o amor está mais no que se pode mostrar do que no que se sente. De que serve um amor dentro do peito e dentro de casa? Amor e felicidade hoje em dia são bens de consumo, só tem valor se puderem ser expostos. E assim seguimos, confundindo fatos com fotos, e perdendo tempo que poderia ser vivido usando-o para parecer que vivemos. Se antes vivíamos romances de livro, escritos a dois e cuja leitura era apenas para poucos e sinceros leitores escolhidos a dedo, hoje buscamos amores de novela, em que quanto maior o público maior parece o sucesso. Parece. Vivemos de aparências, achando que se criarmos uma ficção boa o suficiente,  se os outros acreditarem, nós também, talvez, acreditemos. Mas o  problema de criar uma história e vivê-la como se fosse realidade é que o vazio que surge quando você não consegue mais se enganar é real. Porque não há aparência capaz de enganar a  angústia. A única solução para isso é viver.

7 comentários em “Não há aparência capaz de enganar a angústia

  1. Redes sociais, televisão, as revistas, a poesia: mãos dadas com o mito da felicidade. Se não é possível sentir, então que possamos mostrar. Parece ser a nova regra. Quem finge melhor?

    Penso também em um outro ponto: E quando a pessoa fica com tanto medo que alguém julgue sua felicidade ou tristeza ou simples viver assim ou assado que simplesmente não se sente a vontade para fazer uma brincadeira, uma reclamação ou um carinho em público?

    Quando é que respirar, sentir e continuar será mais leve? Se a vida já pesa, é mesmo inteligente carregar o peso das aparências?

    Excelente texto como sempre.

  2. Uma vez eu escrevi, acho que no twitter, que o amor está supervalorizado hoje em dia. Pois agora, dou-me conta da inverdade que pensei. O amor não está supervalorizado, mas menosprezado. Acredita-se que o amor é aquela coisa que te tira o chão e faz o mundo parar pra vc passar, quando acho que no fim das contas, o amor é muito menos do que isso. E por ser muito menos, é muito mais. Já disse a nossa Clarice Lispector (a nossa, Carina, não a Clarice das redes sociais) que a simplicidade é complexa. Tá aí, acho que o amor é simples.

  3. Sabe o quê, Carina? O casamento dos nossos avós antigamente também se chamava casamento de aparência. O preço de se viver integrado à sociedade é manter a aparência muito próxima do modelo de vida que ela considera sensato para se permanecer unida, diante de tantas possibilidades que a desagregariam e a tornariam inviável. Freud pensava assim em “Totem e Tabu” e é provável que estivesse certíssimo.

    O que a gente deve prestar atenção – até porque na maioria das vezes nós mesmos dele nos valemos – é no modelo social com o qual a gente precisa parecer pra sermos aceitos na sociedade.

    Que expectativa romântica, ética e inocente é essa nossa, pela qual a gente ainda espera, apesar da sociedade em que vivemos nos dizer a toda hora que os modelos e valores de hoje são outros?

    Platão já não queria os poetas e outros artistas na tal república que ele imaginava, porque a gente sempre quer uma vida que pouco tem a ver com a sociedade em que vivemos. Romantismo, ética, inocência e outras coisas por aí sempre foram revolucionárias.

    Por mim, vivo de aparências. E, quando encontro gente que nem eu, no bom sentido, veja bem, ponho pra fora o meu verdadeiro eu.

    Ao que parece =o), não é coincidência que você faça parte de uma confraria de trouxas numa sociedade de espertos…

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