O amor está no ar. Atchim!


Ele disse “Vamos sair pra jantar?”


Ele quis dizer “Estou com fome e gosto da sua companhia”

Ela escutou “Essa noite vou te pedir em namoro”

Era noite de “dia dos namorados” e os restaurantes estavam todos lotados de casais de todos os tipos.

Ele disse “Vamos cozinhar em casa?”

Ele quis dizer “Vamos evitar um longo tempo de espera e economizar dinheiro?”

Ela escutou “Vamos ter uma noite de amor?”

Cozinharam a quatro mãos, embora nas pausas para os beijos, mais parecia que só ele, tivesse umas oito mãos.

Ele disse “O que você acha desse negócio de dia dos namorados?”

Ele quis dizer “O que você acha desse negócio de dia dos namorados?”

Ela escutou “Este é um bom momento pra eu te pedir em namoro?”

Ela respondeu sem responder, porque tinha medo de estragar aquele momento, tão importante, que eles contariam para os netos. Era sempre assim, diante de momentos que prometiam a perfeição, ela se paralisava, como se pudesse com isso eternizar um instante.

Ele disse “Esse negócio de dia dos namorados é uma besteira sem tamanho. É uma data capitalista, eu tenho horror a publicitários,eles te fazem acreditar que podem te vender felicidade em potinhos. É como o natal, onde as pessoas são forçadas a parecerem ser felizes e cheias de amor pra dar, é deprimente isso de ficar forçando a barra.”

Ele quis dizer “Estar aqui hoje é importante pra mim, independente de qual dia do calendário seja”

Ela escutou “Eu não gosto de você o suficiente pra namorar, quero só sexo e depois ter liberdade pra sair com outras mulheres”.



Ela ficou demasiadamente decepcionada, pensou que não tinha paralisado-se o suficiente pra fazer aquele momento dar certo. Ele achou que estavam dando um passo a mais. Ela gostava demais dele pra terminar apenas porque ele disse que não queria coisa séria com ela. E pra se defender do que sentia por ele, se envolvia com outros caras, e embora normalmente achasse aquilo tedioso, às vezes se divertia. Ele não gostava da palavra namoro ou de definições que a sociedade nos enfia goela abaixo, então não comprou uma aliança na prata fina pra ela, mas ligava todos os dias pra desejar boa noite.



E assim seguiram, até que ela encheu o saco dele, pedindo uma definição “estamos ficando ou estamos namorando?” e ele encheu o saco dela com essa síndrome do quero-ser-diferente-não-me-encaixo-na-sociedade. E aí eles terminaram aquilo que não estava certo se tinham começado, e foram se queixar pros amigos daquela história do amor líquido e de todos esses blá-blá-blás dessa pseudo-modernidade.






7 comentários em “O amor está no ar. Atchim!

  1. bárbaro o texto, me lembrei de uma história real:

    Uma amiga casada há vários anos, resolveu fazer uma surpresa no dia dos namorados, comprou um corpete, cinta liga, meias,na Marisa, tudo vermelho num tom muito forte, depois de ouvir e ver tanta publicidade de que interessante é o mix lady/puta se rendeu, e encarnou o personagem, passou o dia se arrumando, na verdade até chegar a decisão ela levou um mês, comprou um batom vermelho, geralmente nem usava batom, por isso quis uma coisa diferente do dia-a-dia. O marido trabalhando, chegaria só a noite. Ela sonhou o dia todo, imaginou ele chegando a pegando forte, a jogando no sofá, na cama, arrancando com os dentes a vestimenta especial, rasgando as meias, e transando como há muito tempo não faziam. Beijos de lingua enlouquecidos, ela dizia que os beijos cotidianos eram dados sem paixão, quase mecânicos, sentia muita falta dos beijos antigos. Ela queria ao menos por uma noite ser tratada como as “vadias”, sexo pelo sexo, carnalidade, sem planos, sem contas pra pagar. Finalmente o dia dos namorados chegou, ele chegou por volta das 18:30 em casa, abriu a porta e num susto disse:

    – Que isso mulher!!!

    Ela entendeu:

    – Que coisa ridícula mulher!!!

    Caiu no choro, saiu correndo pro quarto. Ele triste, arrependido,sem saber ao certo o que fazer, ele não era nenhum Clarke gable para salvá-la daquele choro e frustração, na mente dela ele tinha que ser um gable, mas ele desistiu sem nem mesmo insistir, se jogou no sofá.

    @sandrahans_

  2. Bacana a sua crônica e engraçado o título de quem tem alergia a envolvimento. Pano pra manga.

    Ainda bem que o casalzinho que você desenhou não deu certo. O mundo está cheio de par neurótico. Até eu, a long, long time ago, já formei um par desses e foi péssimo. Não recomendo.

    Acho que foi pertinente você se escorar na ideia do Bauman de que, se todo mundo quer ser diferente, todo mundo de certa forma está pensando igual.

    Pensar. Esse o problema do seu e de qualquer casal neurótico. Pensa-se mais do que se sente amor.

    Haja divã pra tantos pacientes de psicanalista…

  3. Querida Ana Suy,

    Graças a Deus deixei pra ler teu texto apenas depois de ter colocado ponto final no meu. Porque tem muito a ver com o que eu penso e ando pensando, esses desencontros de quem no final das contas quer apenas se encontrar no mesmo lugar. Certamente eu seria contaminado (no bom sentido) e teria me influenciado. Ainda preciso te elogiar? rs

    beijos,
    @paraquenomes

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