O desejo, a incerteza e o impossível

O garoto deslumbrado com a mulher. O homem encantado com a menina. Cenas tão comuns que se transformaram em clichês, e eu, grande fã que sou dos clichês penso: por quê? Penso no sexual para além do sexo propriamente dito. Penso no desejo. O que o desperta? O que tem uma mulher mais velha para atrair um garoto? Experiência, segurança, uma sensualidade que meninas ainda não viveram o suficiente para alcançar. E a menina, o que nela atrai um homem? Mil motivos, todos tolos, todos verdadeiros: juventude, inexperiência, a beleza de um corpo jovem. Apesar de concordar com esses argumentos, não acho que esse seja o fator principal. Por que a pergunta que faço nesses casos é a mesma: o que faz desejar? E o desejo não tem nada a ver com lógica e obviedades. Se assim fosse, só as pessoas belas encontrariam um par, ou as inteligentes, detentoras de algum poder. E sabemos que não é assim que funciona. Essas duas caricaturas de cenas que descrevi me indicam um caminho: o desejo nasce da falta, da ilusão de completude.  Buscamos no outro o que não temos, nos agarramos à esperança de que o outro nos complete. Termino de escrever isso e penso que não deveria seguir por aqui, que o caminho que me pareceu uma reta não é assim tão simples. Generalizando, um garoto realmente pode se apaixonar por uma mulher mais velha devido à sua experiência. Mas pode ser porque ela tem uma cicatriz em forma de meia lua no queixo. Um homem pode enlouquecer por uma menina pela sua juventude. Mas também pode ser porque não importa quanto tempo passe, ele nunca consegue definir a cor dos olhos dela. Olhos furta-cor que lhe roubaram a sanidade. E isso se eu estiver sendo, como normalmente estou, romântica e esperançosa. Mas se estiver cansada, com aquela sensação que às vezes me toma de que não conseguimos nos livrar da neurose nossa de cada dia, poderia dizer que nos dois casos o que se busca é o impossível. Buscar o impossível pode parecer algo lindo e corajoso, mas não é. O impossível é impassível. Dele sabemos isso: não vai acontecer. E isso nos dá segurança. Começar uma relação destinada ao fracasso é a forma mais eficiente de não arriscar o trabalho de viver uma relação possível, mas que exigirá concessões e estará sempre permeada pela dúvida: será que vai dar certo? Nunca sabemos, e nunca saberemos, pelo menos não enquanto desejarmos. Pois se o desejo não tem nada a ver com a razão, ele tem tudo a ver com a incerteza, com o não-saber, com o risco. Sinto isso com tanta força, que tenho a sensação de ter escrito muito, e não dito nada. Que dei voltas em torno do desejo, mas não consegui amarrá-lo. Depois da decepção inicial, penso: ainda bem. Se entendesse mais o desejo talvez conseguisse escrever um texto melhor. Mas não conseguiria mais desejar. 

3 comentários em “O desejo, a incerteza e o impossível

  1. Todos os dias venho aqui ler vocês e sempre levo comigo alguma frase, algum paragrafo… mas hoje, Carina, o seu texto me chocou, parei para refletir. Esse texto tem a verdade, a resposta que me perguntava a tempo… Obrigada!

  2. Ai, que trabalho que dá desejar!
    Ou melhor, ai, que trabalho que dá não realizar os desejos! rs…

    Ótimo texo, Cá!

  3. Carina, carina… (assim passando do minusculo, para o maiusculo e vice versa)

    Sim, voce cresce, diminui. Voce instiga, voce mostra. Esconde. Teus textos são Malena em pessoa.

    Encantam. Dificilmente deixa-se analisar. Sou teu fã.

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