Amor em tempos de K7





Play. Lembro de você roubando meus brinquedos, chutando minhas canelas, rindo do meu choro no cinema. Lembro do minúsculo furinho perto do seu nariz, da textura do seu cabelo e do dia em que eu duvidei que você tivesse sobrancelhas. Lembro de quando escrevi minha própria carta de alforria ao lhe receber com um soco sem maiores explicações. Lembro quando você teve diarreia na escola e eu fiquei na porta do banheiro transformando folhas de caderno em papel higiênico. Do dia em que você me contou seu maior segredo e só começou a chorar quando percebeu que não iria me perder por causa disso. Lembro quando você reclamou da macarronada que fiz – sem ter em casa quase nem macarrão – e eu derramei nossa refeição em sua cabeça. Lembro das roupas novas que você me emprestava, do The Doors, do Micro System, dos cabelos descoloridos, do Sim City e dos Redtag. De nossas primeiras vezes. Carros, bebidas, beijos, cigarros, telhados. Lembro de ter ido embora antes de você. Lembro de ter sentido a sua falta durante anos. Lembro de nunca ter esquecido você. Lembro de chorar a cada vez que penso o quanto você foi importante para mim. Pause.

Porque começar a amar deveria ser como fazer amigos na infância. Você olhava, calava, gostava de algo que via, ouvia ou sentia. Chegava sorrindo, dizia seu nome, perguntava “quer ser meu amigo?” e sentava na grama também. E começava a conversar sobre jogos, folhas, tênis, nuvens. Dividia com os dentes o chiclete e com as mãos o chocolate. Você não queria saber se o novo amigo morava na mesma quadra, no bairro ao lado, na zona leste ou no Nepal. Porque existiam cartas. Porque existia fidelidade sem que ao menos soubéssemos o que ela significava.

(Porque ninguém ocupava o lugar de ninguém.)

Sabíamos esperar. Sabíamos que encontraríamos nossos amigos no próximo final de semana, no próximo verão. Não tínhamos tanta pressa.

(Porque relógio, tempo, medo e futuro eram coisas de adulto.)

Continuous Play




Renata Bezerra, além de linda e sabida das coisas da alma, é farmacêutica, mestre em engenharia de alimentos e escreve aqui e aqui.

8 comentários em “Amor em tempos de K7

  1. Que nobre texto. como gosto quando os convidados entram no clima e fazem textos lindos como esse. Parabens Renata! ganhaste um leitor novo.

    Sabiamos esperar… sabiamos mesmo.

    Não tinhamos pressa. Nada era urgente.

  2. Que lindo! Os momentos, os gestos, as tantas coisinhas miúdas que são lembradas humanizam muito o relato, transpiram carinho pelo outro. De onde será que vem essa fala gravada no seu texto tão bonito?

    Nas cassetes, existia uma tensão bacana que se perdeu no CD e no MP3: a possibilidade de a fita rebentar, amassar, da música e da fala desaparecerem para sempre. Tínhamos um cuidado por elas que não tínhamos com a nossa memória, até porque jovens imaginam mais o porvir do que recordam o que passou.

    Agora, vividos, é o contrário: a maioria das cassetes (eu guardo algumas) desapareceu e cuidamos das nossas lembranças com desvelo nunca visto.

    Seu texto esconde a possibilidade das memórias de amigos e de amores partirem. Mas, com tantos momentos e gestos humanos, tantas coisinhas miúdas, fica difícil a gente esquecer o que viveu.

    Assim espero…

  3. Renata,

    Seu texto é um dos melhores que já li por aqui (e olha que leio tudo que é postado e amo cada um dos confrades.)

    Ao mesmo tempo que afaga, seu texto sacode. Sei lá se estou num dia muito sensível, mas fiquei arrepiada e feliz por apreciá-lo.

    Obrigada por participar e um beijo para a Aninha, que a trouxe aqui.

  4. Renata,

    em primeiro lugar: é um prazer te ler aqui.

    Impossível ler e não ser tocada pelas suas palavras. Como era bom ser fiel sem saber, ter medo de monstros – mas não de humanos – não agir sempre com base nos conceitos de ganho/perda, assombrados pela traição e acuados pela paranoia.

    Como era bom viver sem saber. Como era bom viver.

    Lindo, lindo demais mesmo.

  5. Eu chamaria seu texto de um resgaste do tal tempo da inocência, tempo em que ainda não sofremos as mazelas do querer, onde temos um olha diferente sobre o outro, uma confiança maior e um peito mais liberto. Lembrei de tanta coisa de mim. Muito obrigado. Muito bom seu texto.

    besos,
    @paraquenomes

  6. Ah, que prazer te ler aqui, Renata.
    Sabe que eu tenho uma admiração imensa pela sua escrita, e que isso não é de hoje, né?
    Farmacêutica de sentimentos!

    Obrigada por estar aqui.

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