Pronome Possessivo

Talvez o amor seja como uma canção gravada em um disco emprestado.

Ousamos apreciá-lo, mesmo sabendo da necessidade de devolvê-lo.
Eu desafiei o amor na capital dos desamores. 
Pus meu coração exposto, sangrando a secar sob o sol e o vento.

E na cidade plúmbea, alguém coloriu o meu íntimo.

De longe, o brilho intenso dela me atraiu. De perto – bem perto – cegou-me.

De maneira a não mais enxergar os meus próprios conceitos.

Desregrou-me os sentidos.

Eu a desejava, com a inocência do primeiro amor, do primeiro beijo, e com a indecência do último.

Eu a queria tanto. E meu inepto querer, deteriorou qualquer possibilidade do desejo amadurecer.

E mesmo imaturo, vingou, quando a coloquei entre meus medos e entrelacei os finos, longos e claros fios de cabelos entre meus dedos. Em pé, as curvas e contracurvas percorriam o sinuoso caminho desconhecido.

Selamos o amor, com o tocar de nossos semelhantes e coloridos lábios. Lábios estes, que logo após o terno encontro, esboçaram um sorriso muito mais enigmático que o de Mona Lisa, de Da Vinci.

Eu continuava a desejá-la. A minha alma a desejava.

Tanto, que até os meus pronomes se tornaram possessivos. Embora nunca verbalizado, ela era minha.

Minha garota era a fuga da escuridão em que eu vivia.

E sufocada no próprio querer, escravizou-me o próprio refúgio.

Eu respirava agora a minha garota.

Mas o tempo nunca soube esperar. O que era bom durava o tempo de uma música.

E então, ela acolheu a minha sombra e deixou a sua luz. O silêncio fez-se a canção da despedida.

Eu precisei devolver o disco, que continha a canção mais bonita.

Mas gravei-a em mim, bem como a nossa história.

Quem não partiu foi o amor. Talvez estivesse também de salto alto, impossibilitado de caminhar.

Elegi a música como o transporte dos amantes. E eu corro para encontrá-la sempre que aperto o play.

Ela deixou de ser minha, e era ainda tão garota… Minha garota…!

Convidada Especial: Karla Loterio.
Íntima das letras, impetuosa e sensível.

9 comentários em “Pronome Possessivo

  1. Ela era visceral feito Wagner, palatável como Tchaikowsky, inquietante feito Beethoven, amiga das notas tal qual Paganini, emocionante como Rimsky-Korsakov, mas era Mozart quem a fazia feliz…!

  2. Sou suspeita para comentar, pois amo a intensidade da sua escrita.

    Adorei a forma como você encarou o tema e a sensualidade dramática imposta ao texto.

    Obrigada por abrilhantar a Confraria, sua linda! ^^

  3. Obrigada! E Flah, obrigada pelo convite. E pelo cantinho reservado a mim no relicário dos trouxas. Obrigada por incitar meus devaneios e dramas escritos. <3

  4. Muitas vezes mesmo devolvendo o disco a melodia fica impregnada em nossa cabeça, de tal forma que o coração faz questão de reproduzi-la nota por nota, o coração retém a canção e o amor e repete a música sem deixar que esqueçamos de senti-la e apreciá-la. São canções raras e bonitas essas tocadas pelo coração.

    Viajei no texto como se este fosse mesmo uma canção e das mais belas. <3 Parabéns.

    http://www.eraoutravezamor.blogspot.com

  5. “O trem que chega. É o mesmo trem da partida.” O amor tem essa capacidade, de ser dicotômico, paradoxal, binomial e no entanto, no meio de tantos maniqueísmos não ser uma coisa nem outra, ser apenas amor.

    “Mas o tempo nunca soube esperar” É, nem sempre o tempo espera.

    baci,
    @paraquenomes

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