O voo da solidão

Sentada à beira do tempo, ela encarava o precipício através de olhos fechados.

Um corpo caía sem nunca encontrar o chão, triscando os dedos na parede vermelha e pintando as unhas de sangue. Um grito mudo lhe arranhava a garganta, e lágrimas faiscavam ao lamber o rosto ardendo em febre. A queimadura na pele não era nada comparada à angústia daquele princípio sem fim que já durava eras.

Ela queria abrir os olhos, mas tinha certeza que se o fizesse o corpo encontraria, enfim, seu fim, com um baque surdo que lhe explodiria os tímpanos. Enquanto agonizava entre desespero e revolta, sentiu algo tocar seu ombro. Seu corpo enrijeceu ao toque, mas logo sentiu a carne macia a envolver e relaxou. Uma voz de pétala lhe disse:

– Ontem à noite, ou há duas semanas, ou talvez cem anos atrás, eu conheci uma guria. Ela era assim como você, mas suas unhas eram vermelhas como o sangue quente que a impulsionava a pular em cada abismo que rachava nosso caminho. Eu a assisti cair muitas vezes, e fugi dela por isso, acreditando que era ela quem estava me impedindo de voar. Que a solidão dela era demasiadamente pesada para as minhas asas. Mas agora eu entendi que a solidão que me prende ao chão é a minha. Foi a minha solidão que reconheci nos olhos de precipício daquela guria tola e corajosa, que se lançava ao vento com sonhos de flutuar e acabava sempre com a esperança morta e o corpo em carne viva.

Ela sentiu o vento arranhando a pele e tremeu de frio. A febre que esquentava seu corpo parecia ter cedido. Abriu os olhos e sentiu o impacto final da queda, que não foi tão dilacerante como das outras vezes. Abaixou o olhar e viu unhas vermelho-sangue cravadas na carne dele. Sorriu dos lábios até a alma. Antes de pular de novo, ela só teve tempo de ouvi-lo sussurrar:

– Voa com teu corpo, que eu seguro a nossa solidão. 


12 comentários em “O voo da solidão

  1. Fiquei desorientada ao ler seu texto.

    Vou lá me preocupar com coisas fúteis pra poder fazer um comentário minimamente inteligível depois.

    Como adoro te ler!

  2. “…acabava sempre com a esperança morta e o corpo em carne viva.”

    Como isso me soa/é/faz familiar…

    Que texto, Cá…!
    De tirar o fôlego.

    Beijo!

  3. Me perdi por breves instantes no seu escrito e no final me encontrei com lágrimas nos olhos.

    Simplesmente fabuloso Carina.

  4. Ah, Carina, como você é ótima.
    Gosto tanto de textos nessa linha. Me lembrou de um sonho que eu tive quando muito novo. Eu caia e caia, infinitamente, do prédio de uma amiga nossa. E quando chegava ao chão, eu o ultrapassava e voltava para o último andar e tornava a cair. Até que acordava e sentia o colchão e o frio da noite. Entendo a sensação.

    Um beijo!

  5. Cá, quando alguma coisa é muito profunda, a gente recorre à teoria. Bem sabe disso você, que é também minha colega de profissão.
    Então acho assim, que no gozo místico, o gozo Outro ao qual Lacan se referiu, não há palavras pra nos fazer companhia, e acho que é disso que você conta.
    Uma mulher está sempre a assegurar a sua solidão, e isso na melhor das hipóteses.
    Estamos sempre a encarar o precipício de olhos fechados.
    Como isso diz desse artesanato que nos dá tanto trabalho, que é essa coisa de ser uma mulher!

    Muitos beijos em você, por ter escrito isso.

  6. Carina, que texto absurdamente fantasioso. No bom sentido. no sentido da loucura bela. Eu quando li, fiquei com os olhos arregalados. Foi algo assim: Que viagem! Que mistura de sonhos, realidades, fantasias, tudo.
    Tudo misturado sob tua otica.

    Posso ter demorado a vir aqui te escrever, mas queria vir somente quando pudesse te retribuir da mesma maneira. Em palavras!

    Beijo!

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