Ene-a-o-til

Estou bem assim. Sim, assim, sem homem algum ao meu lado, exceto o meu chefe, porque desse não posso abrir mão. Não, eu não virei lésbica, e se fosse por isso eu te falaria, estamos em 2012, não estamos? Por que raios toda a sociedade tem sempre que desconfiar da alegria de uma mulher solteira? É claro que eu não encontrei a felicidade plena, assim como as mulheres que têm namorados, maridos ou casinhos, também não, e assim como os homens solteiros, casados ou enrolados também não. Mas estou bem. Descobri que eu sou uma ótima companhia pra mim, não sou tão assustadora quanto eu pensei que fosse, embora eu pensasse sem pensar. Aprendi a desfrutar até mesmo da companhia da solidão, porque ela é a minha maior parceira. Quando nós estivemos juntos, vivíamos em um triângulo amoroso: eu, você e a solidão. Ela me acompanha há muito tempo e eu sempre a olhei com cara feia, na esperança de que ela se tocasse que não era bem-vinda e fosse embora. Mas a solidão é moça teimosa como eu, e me venceu pelo cansaço. E hoje, querido, eu percebo que ela é a única nesse mundo que jamais me abandonou. É verdade que ela fica mais acinzentada ou mais colorida de acordo com a situação em que estou, dependendo das pessoas que me acompanham, mas de alguma forma ela está sempre por aqui. Olha, pode até parecer, mas isso aqui não é papo de mulher ressentida, viu. Eu não estou fazendo manha ou reclamando de coisa alguma, aliás, estou é te dispensando, meu bem. Sei que você não me quer verdadeiramente, só está incomodado com a minha alegria solitária. Poucas coisas são tão instigantes para um homem quanto uma mulher que não precisa dele. Era assim antes da gente se envolver, aí eu comecei a te amar loucamente e você começou a ficar com medo de mim e agora que eu não preciso de você de novo, você volta com esse papinho de que me ama. Céus, desde que o mundo é mundo as coisas funcionam assim! Aprendi que o modo mais eficaz de ser desejada é não desejar. Seria lindo, se não fosse verdadeiro. Não te desejo realmente, não é só pra fazer tipo. Digo-te não com propriedade. E você que se vire com o tesão que tem pelo não.

11 comentários em “Ene-a-o-til

  1. Ana, dá pra parar de traduzir minha alma em palavras? Você é uma escritora maravilhosa, menina!
    *————*

  2. Costumava dizer que a solidão é a falta de si, mas realmente ela está sempre presente. Adorei o texto, me fez refletir bastante e lembrar que não estamos sós nem mesmo ao escolhermos ficarmos sós. Onde está essa felicidade plena seja só ou acompanhado, nunca senti também, nunca passou de uma utopia!

  3. Minha alma chorou silenciosamente ao ler esse seu texto, Ana. Tão delicado. Tão simples. Sabe… penso que o que mais queremos é que o nosso não se transforme no sim do outro. Afinal, quando dizemos sim o outro sempre diz não. As confusões e as ironias do amor.

    Beijo. 🙂

  4. Boa !!! É isso mesmo. Concordo e assino embaixo já que não posso assinar como autora. Genial….

  5. Ótimo. Gosto do tom de autossuficiência que o texto apresenta e, sinceramente, me identifiquei com isso. A distância, em determinados casos, é a melhor coisa a se fazer. A abstinência serve como o melhor equilíbrio. Assim como a fome, a quem teve muito de comer e jogava no lixo.

    Parabéns, Ana!

  6. Que linda a moça do texto!

    Porque a grande maioria das pessoas anda tão carente de relacionamentos? Hoje penso que por um medo irracional da solidão ou pelo preconceito subliminar que determina ser socialmente inaceitável estar só e ser feliz assim.
    Aí vem seu texto e… puf! Diz tudo.

    Não dá pra criar uma escala pra sua genialidade, Ana. Você está sempre surpreendendo e sendo melhor a cada letra. Obrigada por isso.

    Um beijo de quem (re)afirma ser sua fã.

  7. De um encantamento impar. Me pus a pensar na praga que é levar um não.
    Diz não e vira objeto de adoração :-/
    Me lembrou de uma frase do Caio: “É tudo muito simples, pisa que gruda, gruda que pisa.“
    Excelente Ana! :*

  8. perder para dar valor, nada mais primitivo, nada mais clichê, e que tantas letras dor de corno gerou. um texto século xxi, sem ressentimentos, que não os de um sentimento de independência e segurança do que se quer. mulher como a tua personagem me atraem. amém.

    besos,
    @paraquenomes

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