Ode ao ódio

– Que porra de poema é esse?

– O quê?

– Esse poema aqui, “Eu quero, você também quer, mas se afasta”, que porra é essa, Malu? Quem te deu isso?

– Eu não acredito que você estava mexendo nas minhas coisas Luís Mário! Me dá isso!

– Não vou dar merda nenhuma. Me diz que poema é esse. Você tem outro no Rio? É por isso que viaja tanto?

– Depois de tudo que conversamos, nós combinamos de nunca mexer nas coisas do outro, e você fica remexendo meus livros enquanto eu não estou em casa? Você é ridículo, merecia que eu tivesse outro mesmo.

– Ah, agora a culpa é minha? Mexi mesmo, e ainda bem que fiz, senão ia ficar aqui fazendo papel de otário enquanto você recebe poeminhas babacas de outro.

– Eu não achei o poema babaca, achei lindo, babaca é você. Luís, eu larguei meu trabalho, minha cidade, tudo por você. Que prova mais você precisa de que eu te amo?

– Não muda de assunto! Me responde, quem te deu esse poema?

– Não que seja da sua conta, mas esse poema não é meu. O livro é da Sueli, ela me emprestou e o poema veio junto. Pronto, satisfeito?

– Pode até ser verdade, mas você poderia receber um poema desses. Você pode até ter recebido outro, que não está aqui.

– Pois é, posso. Posso receber poemas, cantadas, telefonemas, mil coisas que você nunca vai sequer ficar sabendo. Então para de procurar. O que você quer, um motivo pra ir embora? Já se arrependeu do casamento e tá procurando um jeito de se livrar de mim?

– Claro que não, você tá louca?

– Louco tá você, mexendo nas minhas coisas e achando que poderia estar com qualquer outra pessoa. Aliás, eu poderia estar com qualquer outra pessoa. Mas não estou. Estou com você, porque é você que eu amo.

– Mas e se você atropelar outro com a sua bicicleta? Ou se você for atropelada? Você tem razão, eu estou louco, enlouqueço só de pensar em te perder.

– Então para de pensar e me beija.

Malu e Luís Mário viveram muitos anos de intenso amor, com muitas doses de alegria e brigas e ódios ocasionais, que só serviam para mostrar o quanto, ainda, mesmo se odiando, eles se amavam. 



(Esse é o meu final alternativo para o filme, caso Luís Mário tivesse dito a Malu o que o incomodava. Mesmo que tivesse sido assim, aos gritos. Porque gritos não ferem o amor. O que mata o amor é o silêncio.)

7 comentários em “Ode ao ódio

  1. E que graça tem brigar, se não for pra fazer as pazes?

    Gostei do final alternativo, Cá! Prefiro sempre as palavras “malditas”, do que as por dizer.

    Me lembrei do Milan Kundera “Não há amor que sobreviva ao mutismo”.

  2. Acho que em pouco tempo vou ter uma conversa parecida com a minha (ex)namorada.

    Justamente sobre esses poemas.

  3. Achei lindo, lindo. Gostei do final. Mas o que eu amei MUITO foi o lance do amor e o silêncio. Tai uma verdade universal e não só para ao amor: o silêncio mata!

    Beijo, Carina, cê é ótima.

  4. Sem diálogo não há amor. Sei bem, e por experiência própria, em como a falta de uma boa conversa, mesmo que regada à palavrões, pode decretar o fim. E aquele arrependimento mais tarde. Gostei deveras desse diálogo e do final alternativo.

    beijos, foi muito bom estar com vc em sp, precisamos agora passar a fazer isso no rio tb 😉
    @paraquenomes

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