A-mor-te

Amava como quem respirava sem pirar, como quem andava, como quem piscava – sem esforço. Não era um amor doído, doido ou louco. Não era paixão e nem essas coisas que a mídia e a ciência adoram explicar. Não é você quem ama, são os seus hormônios, feromônios neurotransmissores e substâncias que blá-blá-blá estão desregulados.
Amor, ali não era doença moderna. Era uma existência alheia que morava levemente em si mesmo. Como um pedaço de boca vermelho-feminino que fora cuidadosamente guardado dentro do peito dele. Como um olhar-masculino capturado e guardado no tornozelo dela. Como uma madeixa de cabelos dela cheirando a xampu, aprisionados na nuca dele. Como um suspiro que sai do próprio corpo e visita a casa do vizinho, é recebido com chá com bolo e fica pra jogar conversa fora. Um suspiro fora do corpo, era só isso o amor, um sentimento despretensioso e sem ambição. Não demandava correspondência, prova ou coisa alguma. Não era neurose, era amor. Você me dá sono, ele disse. Ela respondeu entortando a testa de susto, e ele explicou que era porque ela o deixava tranquilo. Parece bom. E era. A existência de um justificava a respiração do outro sem que eles se fundissem num só. Tinham dores e frustrações, mas deixavam as poeiras d’alma para o mundo, e não para o outro.
Num dia quente e ensolarado ela morreu. Seu corpo parou de funcionar, o sangue deixou de correr e passou a caminhar, devagar, mais devagar e ainda mais d e v a g a r – até que parou e quase começou a andar de ré, num movimento inverso à vida. Só que a morte não é o avesso da vida, é apenas uma condição para ela. Quando se começa a amar, o amor é infinito. Ainda que a vida termine, o amor é sempre infinito. A correspondência termina, o arrepio na espinha da existência acaba, as palavras se calam. Não é porque você morreu que deixarei de amá-la. E não é porque você morreu que irei amá-la ainda mais. O amor não está inscrito no tempo, está escrito na minha alma. Não comia. Não dormia. Não bebia. O corpo parara de funcionar em plena vida. Virou estrela, que em plena morte se vê o brilho. Tal como o amor. É num instante que ele acontece, depois nos alimentamos do brilho de um morto. O amor é infinito e por isso sempre morto, pois nada do que é vivo é sem fim.

14 comentários em “A-mor-te

  1. O amor é esse contratitorio da vida. É esse sabor que nao conseguimos identificar o sabor. Apenas gostamos. O amor é esse eterno prejuizo que sempre insistimos em investir. O amor é esse mix de perfeito e limitado. Ele, o amor é perfeito. Nós, os amantes e ora amados, somos limitados….
    O amor é isso, é esse andar no mesmo ritmo que outro, mesmo que o outro nao esteja mais aqui….
    Talves seja isso, o amor é ponte. Ponte que nos leva….. Apenas nos leva. Sem destino, apenas nos leva…

  2. Comecei a marcar trechos para nortear meu comentário, mas acabei me encantando por vários trechos e transcrevê-los, seria transcrever o texto inteiro.
    Muito lindo. *-*
    Um abraço.

  3. Ai, Ana! :´(
    Dá licença, preciso me recompor.

    Um beijo, menina que fala a língua da minha alma!!

  4. Desde que aqui começou a escrever ano passado, teu texto mais filosófico, na minha opinião, um texto pra ser lido N vezes, um texto pra inúmeras reflexões.

    besos,
    @paraquenomes

  5. Porra! (Há coisas que só um palavrão bem-dito consegue expressar.)
    “Eternidade não era só o tempo, mas algo como a certeza enraizadamente profunda de não poder contê-lo no corpo por causa da morte; a impossibilidade de ultrapassar a eternidade era a eternidade; e também era eterno um sentimento em pureza absoluta, quase abstrato.”

    A Clarice, em Perto do Coração Selvagem.
    Você, aqui.
    As duas costurando coisas bonitas, embora doídas, em mim. Aos poucos e a cada palavra.

    Foi lindo, Ana.
    Um dos seus melhores textos.

  6. Estou com o Sal nesse comentario. Que texto belo. Voce dissecou as palavras, os sentimentos e afins. E me deu um gole de inspiração pro texto que virá!

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