Denegação

Não sei se já te falei, mas um dos meus textos favoritos do Freud é intitulado “A Denegação”. Nele, Freud explica o mecanismo pelo qual muitas vezes precisamos dizer algo negativando, “não é a minha mãe”, “parece que eu quero seu mal, mas não quero”, para expressar algo inconsciente que não queremos admitir. Então, segundo ele, quando digo “não é a minha mãe”, é porque É a minha mãe. Lembrei-me dele agora porque é o que tento fazer o tempo inteiro em relação a nós. Digo que não te amo mais, porque te amo. Digo que não quero mais você, porque te quero. Eu me afasto de você, faço tipo, falo coisas que eu não sou, tudo por medo de me entregar. Escrevo isso e em meio às lágrimas surge um sorriso. Medo de me entregar? Eu já sou tua. Eu ainda sou tua. Desde a primeira fuga mal sucedida. Continuo fugindo, mas a sensação é que de tanto fugir eu acabo não saindo do lugar. Dou voltas e mais voltas e ao invés de me afastar acabo me prendendo mais a você. A ida que nunca vai, a volta que nunca fica. Não sei mais nem se essa frase diz de você ou de mim, acho que de ambos. De nós. Nós indefiníveis, indesatáveis, indissolúveis. É isso, começo a te escrever e logo tantas palavras me invadem, palavras nossas, evidências inegáveis que não há aparência no mundo capaz de negar. Ainda assim, tentamos. Ainda assim, eu tento. Fico nessa loucura de dizer que não te quero, de fingir que não te conheço, quando meu maior desejo é você. Você com todos seus erros, defeitos, mentiras e segredos, eu com todos meus medos, exageros, ansiedades e insistências. Nós. Não há loucura maior que nós, diz meu eu racional, consciente e inteligente. Não há loucura maior que negar nosso amor, diz meu coração, meu inconsciente, ou talvez seja apenas meu eu corajoso. O problema é que por mais inteligente que eu seja, não consigo enganar meu coração. Então, chega. Chega de medo, chega de mentiras. Loucura ou não, eu te quero mais que tudo, e entrego minha vida pra você fazer o que quiser de mim. Eu sei que te amo. Já, ainda, sempre, nunca mais, agora. Eu te amo.

12 comentários em “Denegação

  1. Se amor é coisa de trouxa, fugir dele é coisa de gente louca. E o contrário, também é bem verdade.

    As pernas te levam para outros lugares, você encontra outros sorrisos [alguns até bem fáceis]e não adianta porra nenhuma.

    Disfarçar as evidências. Bom seria conseguir engabelar também o nosso peito [ou não].

    Acho que a única coisa mais difícil que fugir do amor, é deixar ele partir.

    Estava ansiosa esperando seu texto dessa semana. Muito fã da música tema e ainda mais da sua escrita, Ca.

    Um beijo

  2. “E nessa loucura de dizer que não te quero vou negando as aparências disfarçando as evidências…”

    Carol

  3. Bah, eu já tinha achado o texto lindo, criativo, tão parecido com as pessoas que hoje vivem, com romances cinematográficos e com o amor que preso e acredito. Achei lindo mesmo. Mas como comecei a seguir hoje e li esta parte do comentário, não vou deixar de comentar que amei!

    Amei: “Trouxas…
    “passam noites em claro, conhecem o gosto raro de amar sem medo de outra desilusão… Romântico é uma espécie em extinção”
    Para que não sejamos extintos, nos dê moral! Escreva com a gente 🙂
    Um trouxa nunca está só!”

    http://umaestrelanochao.blogspot.com.br/

  4. Eu num sei nem o que comentar, acho que não há muito o que dizer diante de um texto desse… Me identifiquei demais!
    Muito bom mesmo, não só esse, mas todos os seus textos ! Talento demais.

  5. Carina, amiga querida!

    Sentia falta dos teus textos assim, sabe?! Analisados, textos com uma carga tão pesada que quando acabamos, damos um suspiro. Aliviado. Mas aliviado de uma maneira boa. Como falei antes, essa semana foi algo bom demais essa Confraria. Foram textos repletos de sentimento. Textos pessoais, fictícios, romanceados… Foram todos muito bem trabalhados. E voce nao deixa a desejar NUNCA.
    Sou teu fã!

    🙂

    Beijo Cá!

  6. É bem isso mesmo. Acho que me vi em várias partes do seu texto. Principalmente quando citou Freud. rsrs’
    Mas às vezes nos parece mais cômodo fugir do amor e negá-lo. Uma ilusão que pode nos fazer mal daqui algum tempo.
    Amei o texto. Gosto muitos dos outros textos, mas sempre fico a espera do seu. Beijinho.

  7. Adorei a coreografia de palavras com a música! E o Freud…ah, todo o meu amor pela sua literatura, Cá!

    “Não há loucura maior que negar nosso amor, diz meu coração, meu inconsciente, ou talvez seja apenas meu eu corajoso. “

    <3

  8. Fazia um tempo que não te lia e agora sei o porquê. Toda vez que a gente te lê tem que estar preparado, se não machuca.

    Uma semana atrás e esse texto teria me desmanchado em lágrimas, hoje consegui ler e sorrir, mas justamente por entender a negação e saber que não a quero pra mim. Às vezes, por mais que a gente entenda o amor e saiba que ele está em nós, a dor em mantê-lo é muito maior do que tentar distanciá-lo.

    Lindíssimo, Carina.
    AMO tudo que venha de você!

  9. Há dias eu venho aqui e leio/devoro esse texto, pelo menos, duas vezes seguidas, mas ainda não consegui encontrar uma palavra que diga o que sinto quando chego no ponto final.

    (Denegação?)

    Talvez eu já tenha encontrado, sim. Talvez a palavra esteja por aqui desde a primeira vez que li seu texto-lindo. Talvez ela seja tão evidente e doída que ainda me é insuportável admiti-la.

    Enfim, hoje eu só queria deixar registrado aqui que li, que quase decorei, que esse é um dos meus-seus textos preferidos. E que ele é lindo, inteiro, vivo, como tudo que escreves. E que eu a admiro pra caramba.

    Beijo, Carina.

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