IdeoLéoBia

Naquele tempo eu dormia nas suas ideologias, e você nos meus sonhos. Eu não sabia que era sedutora e você não sabia que era seduzido. Eu pirava em você falando do Che Guevara, e você pirava com o meu olhar de admiração. Você me fez ver o quão controladora é a mídia, mas me controlava com as suas ideias revolucionárias. Você me mostrou que o padrão de beleza exigido pela sociedade era perverso, mas amava a minha cintura fina e a fartura que os meus seios pareciam ter quando eu usava, ao mesmo tempo, dois sutiãs com bojo. Me contava que algumas drogas podiam ser muito menos graves que álcool ou cigarro, mas quis bater no mocinho que roubou a minha bolsa – provavelmente para comprar crack – quando eu voltava da faculdade. Odiava os Estados Unidos, mas ria loucamente com American Pie e South Park. Eu não enxergava as suas contradições, você me vestia de lições. Você tocava violão mais ou menos e cantava muito mal. Eu dançava de olhos fechados. Seria perfeito, se o mundo fosse feito apenas de nós dois. Aos poucos eu fui descobrindo que o meu dançar era um convite ao desejo dos olhos masculinos e ao ódio dos olhos femininos. Aos poucos você foi descobrindo que cantava para que mais de uma dançasse para você. Eu soube que eu sentia muito ciúme de você, e que o ciúme despertava as minhas loucuras. Percebi que eu gostava de ser escandalosa, e soube que você odiava que eu fosse escandalosa. Descobri que eu amava fazer o que você odiava que eu fizesse, e a gente fez da nossa vida um lindo inferno. Você tomava porres e o álcool potencializava a sua sutil idiotice, te deixava apaixonadamente agressivo e eu jurava sumir da sua vida no instante seguinte que nunca chegava.  Íamos do céu ao inferno em uma sílaba, voltávamos para o céu num suspiro, retornando ao inferno no próximo batimento cardíaco. Nosso céu era horrível, nosso inferno era lindo. Estava tudo errado, e por isso tudo dava certo, afinal de contas, éramos jovens. Fui fazer intercâmbio na Califórnia só pra te irritar e você aprendeu a cantar afinado só pra me irritar. E enquanto a gente se irritava o tempo foi passando, entre idas e vindas fomos amadurecendo. Hoje temos três cartões de crédito, compramos roupas, perfumes e eletrônicos no exterior e você tem três camisetas do Che – que usa pra dormir. Você odeia Apple, ama Android e essa foi toda a revolução que restou de você. Ideologia é bom só até os dezoito anos, depois é burrice, você diz, com cinquenta tons de frustração. Eu tenho preguiça de te irritar, você não tem mais ideologias, e a gente se ama de um jeito calmo. Então eu quase duvido de que seja amor. 

2 comentários em “IdeoLéoBia

  1. Por que temos essa necessidade de que tudo seja ENORME, tenso, denso, doído, pra dizer que é amor?

    E por que não teríamos?

    Talvez seja o lugar onde preservamos a revolução e a ideologia que a vida prática não comporta, mas que o amar não só abarca como exige.

    Amei, Ana!

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