Tetris em corpo feminino

É sempre assim, não consigo me controlar. Quando eu penso que vou conseguir fazer diferente, racionalizo toda a situação, torno-me consciente do quanto sou provocativa, quando me sinto forte e em pleno controle de mim, vou lá e te provoco sem-querer-querendo. Acontece que eu não existia antes de você me olhar, e é só quando você me olha que eu posso existir. Mas não é a qualquer olhar que eu me refiro – você bem sabe que eu sou exigente, é um olhar muito específico, inundado do seu desejo não reconhecido. É um olhar que não quer ser. É quando você não quer me olhar, mas não consegue ser dono de si, e me olha todo cheio de vontades que só sabem ser desajeitadamente – é exatamente aí que eu existo. É verdade que pago caríssimo pela minha existência, eu sei que podia pagar um pouco mais barato por isso, então decido que não preciso complicar tanto a minha própria vida, mas de repente estou ouvindo seus gritos enquanto eu me calo, mas de repente estou gritando enquanto você acaba com o os seus planos de diminuir o cigarro, mas de repente você vira as costas pra mim e por um instante me faz acreditar que vai mesmo embora. Sou um tetris ambulante, fico todo o tempo fazendo joguinhos que inevitavelmente não darão certo. Flerto com todos e com todas, o tempo todo. Sou tão discreta que por vezes, nem eu mesma me percebo fazendo isso. Te chamo de louco, de paranoico, te julgo e te faço achar que você está enlouquecendo, mas secretamente sei que eu sou a grande responsável pelo seu descontrole, e isso me apazigua. Pra me agradar te peço desculpas, embora eu saiba que o meu pedido de perdão não faz nem cócegas em você. E eu tava aqui achando essa situação toda linda, me achando toda princesa do seu desejo, tava apaixonada aqui pela minha tolice e pela minha neurose, quando de repente percebi que o seu olhar não olha pra mim quando eu te provoco, mas olha para as pessoas com as quais eu te provoco! E agora me lembro perfeitamente de todas as cenas. Foi pro João, pro Rafael, pro Sebastião e pro Tiago que você olhou com fúria quando eu achava que era pra mim que você olhava. E agora eu percebo, não se trata de ciúmes, não se trata do meu joguinho, mas do SEU joguinho! É você que fica medindo a sua masculinidade com todos os caras que passam por perto de mim, tal como meninos na puberdade medem o tamanho dos seus órgãos. E eu aqui, me achando culpada e me torturando por não saber agir diferente! (Pausa) É por isso que eu te amo, você sempre abre uma brecha pra eu vestir esses lindos modelitos de vítima. Eles me caem muito bem, né?




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6 comentários em “Tetris em corpo feminino

  1. Amor ao outro e amor narcísico se confundem tanto que nem sei se é possível um sem o outro.

    Belíssimo texto, Aninha!

  2. Ana, que belo texto! Dos amores, autores, a fora. Uma indelicadeza nao ser compreendido. Nao ser ser repetido. O sentimento sozinho. Gostei.

    Ps. Pede pro Rafa ai em cima colocar o comentário dele. Ja que é impossível nao comentar. Fiquei curioso.

    Beijo!

  3. Não seja por isso, Cláudio Marques.

    A Ana Suy escreve com profunda delicadeza. É como se ela pintasse com palavras a caricatura da nossa alma no papel. Ela guarda segredos nossos sem saber. E revela disfarçada e educadamente em cada palavra escrita. Por isso, meus olhos não se cansam de ler. E por mais. Muito mais…

    P.S.: Matou sua curiosidade, Cláudio? (risos) *-*

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