árido m’olhar

que os planos virem asas
e saiam por aí pulsando olhares
que os olhares se encontrem
e contem histórias
que as histórias aproximem
o que a geografia separou
que a literatura multiplique o pão
que o pão à mesa seja farto
e que da fartura tanta a vida vire poesia
e que a poesia seja cantochão
aldeia de estrelas e luar
vagalumes sonoros
em tecnicolor neon


teu ventre tem cheiro de chuvosas manhãs e gosto de tardes brumosas e silêncio de madrugadas salgadas… há uma poça dentro de mim a reclamar um castigo. derramo meus pecados, martírio confesso, pelas ruas esquecidas, por onde me lembro de ermos abandonos.
luxúria de animal que rapina.
incúria da ravina lâmina.
crua dúvida a cambiar a sina.
novedio de iníqua fortuna em poliândrico bojo impudente. cadima brenha a vergalhar o nume. um teorema ninguém, alguém sem cena,
além…
acoimar-me.
afundamento pelas profundezas do insondável. prédica úmida que me confessa. ludibria-me sem brilho. malogrado logro de estribilhos ocos. oculto ogro silente, oclusão manifesta em écran luzente.
desejas o olhar do outro… da outra… aquele de viés. o revés é perto. quase tudo vejo. não sabes. 
profano-me imaculado diante das tredices tuas.
o nome do filho tem, daquilo que a carne expulsa, todos os enigmas do sonho… pelos arrabaldes rudes rebentam arrebatamentos de minha loucura.
assedia-me a acídia dúvida: l’appel du vide…
…trovejo-me em teu olhar uma mudez molhada. suspira-me a vela que sou. rendo-me entretecido nos teus olhares de fiandeira ventura. cerzi com o vento o leito onde te aconteço.

4 comentários em “árido m’olhar

  1. Geralmente preciso ler seus escritos mil vezes antes de ensaiar um comentário.
    Mas hoje só comento que não consigo comentar.
    Admiro absurdos a sua escrita, confrade.

    (insira aqui um longo silêncio de respeito.)

  2. tantos sinônimos e fonéticas, tanta poesia, alegria e tristeza. simplesmente tecidos, onde há beleza, (na)morada em nossos olhos, ouvidos.

    abraços, mestre
    @paraquenomes

  3. Sempre me impressiono com a sonoridade dos teus textos, e com a capacidade de criar aliterações inimagináveis – com palavras igualmente inimagináveis, e ainda assim fazer sentido. E mais, fazer sentir.
    Lindo.

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