miinh’alma, minh’Ana, meu erro.

Nos conhecemos nos primeiros anos do colegial. Ana Costa Machado. Esse era o nome e sobrenome dela.
Eu sempre fitava-a e sonhava trocar duas ou três palavras, quem sabe até um beijo no rosto, aqueles beijos rápidos, que eu via-a distribuindo cada vez que chegava ao portão da escola, cumprimentava todos os amigos/amigas, distribuia abraços, risos, era tudo que eu queria estar lá. Fazer parte. 
Por um mero acaso do destino estudantil, nos juntamos em um trabalho. E foi a partir de então, que descobrimos que nascemos na mesma maternidade, nossos pais tinham profissões semelhantes, que éramos uma dupla e tanto nos estudos. Que a minha facilidade com literatura era a dificuldade dela, que ela dominava biologia e quimica, enquanto eu explicava história e matemática a cada bimestre.
Mas isso tudo, fora da escola. 
Na escola eu continuava sendo tímido, franzino, inocente. Ela, menina-moça, cabelos lindos, um corpo recém modelado pela mocidade, um riso solto. Um olhar…. o olhar. 
Eu amava comparar nossa amizade com Bentinho e Capitu. Talvez por acreditar que um dia, ela me olharia com aqueles olhos de ressaca, que um dia ela fosse ser minha tal qual Capitu foi para Bentinho. 
Não sei se eu acreditei demais, se eu inventei demais. Sei que desejei mais. Muito mais. 
E foi por essas e outras, que cada lágrima derramada aquele dia doeu. Cada uma que escorria pelo meus olhos, parecia me cortar.
Tinhamos combinado de estudar para os exames finais, juntos, como ja era de praxe. 
Todo domingo a tarde, revisávamos a matéria da semana e já nos preparávamos para as provas. No sábado, Ana me ligou e disse que não poderia vir até em casa, que teria um batizado, almoço de familia, depois evento com os padrinhos e só retornaria a noite, e sendo assim, não teriamos tempo para nosso encontro semanal. (sim, eu aguardava o domingo, mais do que o padre aguarda o fiel na igreja, eu aguardava o domingo pois era o dia em que a tinha por inteira comigo.)
Desligamos o telefone e avisei meus pais, que iria sair, pois a Ana não viria essa semana. 
Esse foi meu erro. 
Sair. 
Passei pela Praça Central, subi, desci, sentei nos coretos. Caminhei por toda extensão da Avenida Pedro Cavalcanti, entrei e sai de livrarias, até que passei em frente a Biblioteca Central. Tinha pelo menos uns 4 meses que não ia lá. E de novo, mais uma vez, errei.
Entrei.
Esse foi meu erro.
Entrar.
Conhecia aqueles corredores tão bem quanto meu quarto. Peguei dois ou três volumes sobre história do cinema e me entretive. Até o momento em que ouço bem lá no fundo, um sussurro. Ah, aquele sussurro que eu poderia reconhecer até embaixo d’agua. Ana.
Levantei de imediato. Cuidadosamente. Olhei entre as frestas e chorei.
Meu amor, minha amada, minha Ana, ali, sentada. Falando ao pé-do-ouvido com alguém. Um alguém, um qualquer, um João, um José, um sei-lá-quem. 
Chorei. Como marido traído, chifrado, corneado. Em praça pública. Chorei.
Ah Ana, eu te queria como coadjuvante da minha vida, como elenco fixo. Queria cantar pra você, aquele trecho da música do Legião Urbana…

“… Te ver é uma necessidade

Vamos fazer um filme
E hoje em dia, como é que se diz: ‘Eu te amo?’… ” 

Ainda dá tempo de fazer um filme, um filme triste….

3 comentários em “miinh’alma, minh’Ana, meu erro.

  1. Nooossa !
    Já vivi isso,
    e como cortam e machucam cada uma dessas lágrimas.
    Porém as vezes esse enredo triste é apenas fantasia de nossa imaginação ‘trouxa’ … tudo não passa de um equívoco, mal entendido da razão e coração. a história pode ter um final feliz.

    lindo texto.

  2. “Não sei se eu acreditei demais, se eu inventei demais. Sei que desejei mais. Muito mais.”
    O desejo não é sempre assim, meio vivido, meio invetado? O problema é quando a invenção é de um lado só, né?
    Adorei. 🙂

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