O tapa da verdade

Ela calculou a hora certa para chegar na festa, queria que ele já estivesse lá, mas não há muito tempo. Que ele já tivesse cumprimentado os conhecidos, pegado uma bebida, mas não estivesse ainda muito entretido com nada – nem com ninguém. Ela respirou fundo, deu uma última ajeitada no cabelo, e fez a entrada triunfal. Só que, na verdade, não houve nada de triunfo ali, pelo contrário. Ele não a viu chegar, e ela o viu jogando charme pra uma piriguete qualquer, que ria mostrando dentes enormes e uma falta de vergonha maior ainda. Ela viu a cena e se lembrou dele lhe pedindo perdão, dizendo-se arrependido, lembrou-se de como doeu sentir, como doeu perdoar, mas como não conseguiu não fazê-lo. Lembrou-se ainda de como ele lhe disse: você é boa demais pra mim. A música que tocava dizia que “é bom ser ruim”, e ela resolveu experimentar. Foi pra pista dançar, e em dez minutos já tinha dispensado três caras. Não que eles não fossem interessantes, ele eram, mas aquela noite ela era de outro, mesmo que não fosse. Quando não aguentou mais aquela cena de estar se divertindo ela passou bem em frente a ele, que ainda conversava com a garota cuja única coisa menor que o short era a inteligência. Dessa vez ele a viu, arregalou os olhos, mas não falou nada. Ela seguiu até o bar, pegou uma bebida só para ter o que fazer com as mãos, e o esperou. Agora ela tinha certeza que ele viria até ela. Viria como sempre, pediria desculpas como sempre, mentiria como sempre. Esperaria que ela tivesse a mesma reação de sempre: reclamasse, chorasse, mas perdoasse. Cinco minutos depois ele se aproximou, o sorriso tão largo quando a confiança e perguntou: “E aí, vamos conversar?”
No dia seguinte, depois de trinta ligações perdidas ela resolveu atendê-lo. Ele gritou: “Que porra foi aquela de me bater? Você tá maluca?” Não, ela respondeu, eu estava maluca antes. Mas aí descobri que às vezes a verdade precisa bater na nossa cara pra que nós consigamos vê-la. E, antes que ela batesse na minha, achei melhor escutá-la e bater em você.
E, pra não deixar dúvida, ela bateu o telefone na cara dele também.

7 comentários em “O tapa da verdade

  1. Ah Ca, e como doem esses tapas da verdade, hem? Levei alguns que continuam ardendo até hoje.

    De qualquer forma, são melhores que as mentiras (sinceras)ou ilusões supostamente confortáveis, que vão nos esfolando aos poucos.

    Nem preciso dizer o quanto adoro ler você, néh? Um beijo com carinho.

  2. Um tapa bem dado é aquele que sai da boca em palavras que cortam e afiam o cérebro atacado em prantos. Mas esse texto me fez pensar que um tapa real as vezes é bom tbm… rs

    bjsMeus
    Catita

  3. Ahahaha
    Adorei as verdades vestidas de senso-de-humor, Cá!
    Destaque para a inteligência menor que o shorts!

  4. Oi Carina,
    E olha que tem muita gente que merece um tapa desses.
    Adorei o post,a linguagem,deu pra imaginar a cena perfeitamente.

  5. Mas vocês hein?!?!? Cada dia um texto melhor que o outro!
    “Conversava com a garota cuja única coisa menor que o short era a inteligência.” Ahahahahah, ri muito!
    Parabéns a Maria, que deu a volta por cima e fez curativo no seu ego.
    Adorei o texto Carina!

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