Versão do diretor

Quantas vezes você disse que ia trabalhar, estudar ou dormir quando na verdade ia sair com outra? Quantas vezes sonhei com você sem saber que você tornava outro sonho real? Quantas vezes você, quantas vezes eu, quantas vezes nós? Quantas vezes o mesmo filme me fazendo chorar, o mesmo filme nos fazendo brigar, o mesmo filme terminando – só para mais uma vez recomeçar? Em casa você perguntava por que eu assistia o mesmo dvd, mas nunca escutava quando eu respondia que aquele filme era você. Por que tantas vezes você, tantas vezes eu, tantas vezes nós? Por que tantas vezes fim, choro, créditos rolando, e, de repente, começando de novo? Anos de repetições, o dvd começou a falhar. Algumas cenas perderam o som, outras a cor, ou até travavam, me obrigando a pular para o capítulo seguinte. Até um dia em que o filme nem rodava mais. Se eu chorava quando o assistia, a impossibilidade de assisti-lo me fez chorar ainda mais. Por que não mais você, por que não mais eu, por que não mais nós? Eventualmente o choro, assim como o filme, se desgastou. Guardei a caixa no fundo do armário, a lembrança no fundo da memória, e o amor no fundo do coração. Assisti outros filmes, criei roteiros bem melhores, com finais felizes e meios divertidos. Até aquele dia, aquele pacote, aquele bilhete. O dvd, ou melhor, um novo dvd, mas do mesmo filme. Era uma edição diferente, com cenas extras, entrevistas com os protagonistas, e o mais surpreendente: um novo final, a versão do diretor. E era lindo o final. Você sempre foi mesmo o melhor diretor, meu roteiro podia ser bom, mas era você quem fazia a história criar vida. Ainda assim eu pensava, será que vale a pena passar esse filme de novo? Eu teorizava, ponderava, escrevia, mas o argumento era fraco, não tinha certeza que sustentaria mais uma exibição. E de tanto pensar não percebi que o filme já estava em cartaz de novo. Não importavam as minhas teorias, certezas, dúvidas ou razões. Porque sempre você, sempre eu, sempre nós. 

4 comentários em “Versão do diretor

  1. “Não importavam as minhas teorias, certezas, dúvidas ou razões. Porque sempre você, sempre eu, todas sempre nós.”

    Sempre aquela ideia de repetir e não por fim nas coisas. Sabe, às vezes, quando eu releio um livro revejo um filme, apesar de já saber do fim, sempre imagino que pode acontecer um final diferente do esperado. Acho que isso é o legal de poder se envolver com as histórias, pode repeti-las quando necessário.
    Um abraço.

  2. “..Guardei a caixa no fundo do armário, a lembrança no fundo da memória, e o amor no fundo do coração…”

    De tanto guardar, acabei acahando. Encontrei com o diretor e virei o ator principal. Na mesma cena, eu e voce. Voce e eu, agora eramos o filme!

    Texto tao lindo que nos rouba as palavras para comentar!

  3. Nossa! Voce me surpreendeu. Não sei porque imaginava um texto completamente diferente. E veio essa repeticão de palavras, essa vida rebobinada, essa filme ja manjado. Mas com pequenos detalhes perceptiveis apenas para os atentos.
    Lindo texto Cá!

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