Incerteza que faz viver

Se tem algo fundamental numa relação é a confiança.
Se tem algo indissociável do desejo é a incerteza.
 
E aí?
 
Como confiar, e possibilitar a confiança do outro, se é preciso algo não-dito, algo meio escondido, para que o desejo permaneça? Não tenho uma resposta pronta e articulada, nem sei se chegarei a uma, mas isso nunca me impediu de escrever. Aliás, isso é o que me motiva. Meu desejo na escrita também exige esse não saber para existir. Se eu já soubesse tudo, por que escreveria? Alguém pode dizer que escreveria para dizer ao outro, e é verdade, mas assim que entra outro na história o meu saber já não é mais completo. Porque poderia dar uma resposta com a maior certeza do mundo e depois perdê-la ao perceber que alguém não concorda, ou que outra pessoa viu um lado da questão que não me passou. Portanto, escrever, assim como amar, assim como viver, requer incertezas. Tenho, como boa neurótica, muita dificuldade em lidar com a imprevisibilidade, a incerteza, a mudança. Por outro lado, sei que nunca sou tão feliz quando estou amando, e tem coisa mais incerta que o amor? Contraditório, assim como as afirmações que fiz no início do texto. A nossa sorte é que são afirmações contraditórias, mas não excludentes. São paradoxos, pensamentos que vão de encontro à lógica, mas a lógica não tem nada a ver com o amor e os relacionamentos. Por que você ama um e não outro? Por que sente ciúme de tal e não daquele? Por que numa noite adora que ele ria da sua maluquice e na manhã seguinte se ofende? Nada disso tem lógica, portanto (e isso sim é lógico) não há problema algum com contradições e paradoxos. 
 
Ele pode te ligar todas as noites antes de dormir. E estar ligando da cama da amante.
Ela pode se despedir de você todas as noites quando sai do trabalho, sem dizer para onde vai depois. E ficar em casa vendo televisão depois de jantar sozinha.
 
Não adianta querer saber tudo, algo sempre vai escapar. E é justamente nisso que escapa, na falha do saber, que o sujeito aparece, que o desejo se faz presente. E quando você escolhe se relacionar com alguém sabendo que não há garantia, é que você mostra que tem menos medo de perder o outro do que de perder a vida. 
 
 
 

4 comentários em “Incerteza que faz viver

  1. Existe amor e relacionamento sem confiança…
    O que não existe é PAZ!
    Mas e quem é mesmo que tem paz em coisas tão incertas como os sentimentos alheios?

    Amei o texto!

    @L_Tata

  2. Nossa, Carina! Quantas questões causas com esse escrito, quantas incertezas, quantos movimentos…

    Eu, particularmente, penso que uma leitura só é boa quando nos deixa assim, mexidos!

    Amei! Muito bom!
    Abraços, Bianca.
    @Bi_Mor

  3. O mundo está cheio de zumbis que acha que está vivo por simples hábito!

    Que o amor nos acorde. (Nem que seja com cócegas um tanto angustiantes)

  4. (……………)

    A cada frase, uma pequena crise. Terminei o texto e, sem-querer-querendo-muito, me flagrei questionando toda a minha existência.
    Obrigada por isso, Cá.

    Te leio sempre. (Algumas vezes em silêncio porque me é dolorido encontrar palavras-espelhos tão reais e verdadeiras e duras, como as de hoje.)
    Você escreve muito lindo, menina-do-amor.

    Um beijo. Muito carinho.
    Ay.

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