O susto

 

Aconteceu como num susto. Como um susto que você está esperando, mas que nem por isso assusta menos. Ouvia histórias de amor desde pequeno. Aos 4 anos de idade pediu a mãe em casamento, e desde então as pessoas lhe repetiam “um dia você vai se apaixonar, vai casar, vai ter filhos”. Mas quando aconteceu de se apaixonar, foi como se nunca ninguém tivesse lhe avisado. O amor é como a morte, o recebemos com surpresa, ainda que chegue com data e horário marcado. E nunca nos acostumamos com ele. As crianças lidam melhor com as coisas difíceis do mundo, o amor e a morte. Quando pequeno, o avô morreu. Os adultos sofreram muito até poder lhe contar, e só conseguiram fazê-lo depois do velório do senhor. A criança sofreu mais por não terem lhe contado antes do que pela perda do avô. Aos 6 anos de idade se apaixonou por uma mocinha da escola. Depois pela professora. Depois pela amiga da mocinha. As pessoas lhe diziam “isso é coisa de criança, logo passa”. E passava mesmo. De mulher para mulher. Crescido, chegou à conclusão que amor é sempre coisa de criança. Se sentia um bebezão falando com a amada. Logo ele, sempre tão auto-suficiente e metido a machão, ao falar com ela, carregava a voz de um gosto doce, que só as crianças conhecem. Gostava de cafuné na cabeça e de chamar a amada por apelidos toscos. Às vezes se flagrava tão sensibilizado, tão vulnerável à existência dela, que precisava se virilizar. Tinha medo de que ela o engolisse com a sua alma, tal como uma sereia faz com o seu canto. Então saía com os amigos, bebia, arrotava, olhava de forma agressiva para as mulheres ao redor, falava de futebol e de ações e voltava todo cheio de macheza pra casa.  E segundos depois, se tornava discretamente delicado novamente. Não cansava de se assustar com isso. De vez em quando a mulher reclamava que ele era estúpido, grosso, mal-educado. Ela não sabia, mas era necessário ser ríspido para que ela não lhe engolisse e ele se tornasse todo delicado. É verdade que ele não a amava o tempo todo. Em alguns momentos desejava que ela sumisse, ou que nunca tivesse aparecido em sua vida, e esse sentimento lhe fazia bem, lhe fazia se sentir forte e completo. Mas no minuto seguinte era pego desprevenido, se assustava com o amor que sentia por aquela mulher. Maldita, como consegue me fazer desejá-la tão ardentemente mesmo sendo tão chata? E era sempre assim, dia após dia, mês após mês, ano após ano. Nunca se acostumou a amá-la. Até que um dia ela morreu. Ele se assustou com a morte dela, sofreu, sofreu e sofreu muito. Depois se assustou ainda mais quando se sentiu vivo se apaixonando por outra. E se assustou ainda mais, porque era de novo como se fosse a primeira…
 
(E ltalvez fosse).

2 comentários em “O susto

  1. Os amantes dominam a arte do amor. Vivem de futuros. Sabem se recriar, e recriando, se apaixonam a cada novo olhar…

    Fico aqui, apaixonado por suas letras, esperando por um novo olhar de suas cronicas…..

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