Só há sim se houve não

Ela dava o impulso mais forte que podia com as pequeninas pernas grossas. Queria se distanciar o máximo possível do chão, queria voar, queria sentir o vento zunindo nos ouvidos e as minúsculas partículas de areia lhe salpicando o rosto. Enquanto as outras meninas brincavam de boneca ou de escolinha, atuando como futuras mulheres trabalhadoras, mães, e esposas, ela subia e descia, sozinha, no balanço antigo e enferrujado. 
Os anos passaram, o balanço do parque quebrou, mas ela continuava voando. Não fisicamente, mas dentro do peito e da cabeça. Uns diziam que ela tinha a cabeça na lua, outros que o problema dela era ser aquariana com a lua em peixes. As amigas estavam sempre apaixonadas, namorando, sofrendo por amor. E ela, sempre dizendo não.
O primeiro foi um vizinho, gentil e atencioso, que lhe trazia flores, chocolates e jóias, fazendo promessas de amor eterno e devoção ferrenha. Ela não via graça na continuidade do “para sempre” nem na facilidade de ter tudo a seus pés, e para estranhamento de todos, disse não.
O segundo era a antítese do primeiro. Vinha vê-la sem trazer presente algum, e ainda exigia que ela jogasse fora tudo que já tinha. Avisava que ela não tinha direito a nenhuma opinião sobre a vida dele, mas que ela só faria o que ele aprovasse. Ela gostava de se esforçar para conquistar as coisas, mas não teve vontade nenhuma de conquistar quem só exigia, e para alívio de todos, disse não.
Depois disso, ninguém mais apareceu. Muitos até olhavam, mas eram logo avisados que ela só dizia não, e desistiam. A família e amigos se preocupavam, queriam que ela fosse menos rigorosa na seleção, queriam apresentar amigos, queriam que ela quisesse. Só a avó, já muito idosa, dizia: “Se ela quiser, não vai acontecer. Tudo que é importante na vida só acontece sem que a gente perceba. A expectativa estraga tudo, e o tempo não se submete à nossa vontade. O hoje sempre vai ser hoje, mesmo que tentemos puxar o amanhã pra ontem.” Todos comentavam que a velha estava meio gagá, mas ela sabia que a avó era quem estava mais perto da verdade.
Então um dia, que não era um belo dia, e nem era um dia qualquer, mas um dia triste porque a avó tinha morrido, ela caminhava pela praça lembrando do balanço e desejando poder voar. Onde o balanço ficava agora havia um simples banco. E nele estava sentado um homem, parecendo perdido dentro de si. Ela murmurou um pedido de licença e sentou-se. Por alguns minutos, talvez horas, ou até mesmo uma vida inteira, eles ficaram lado a lado, em silêncio. 
Nenhum dos dois sabe dizer como começaram a conversar, quem pediu telefone, quem tomou a iniciativa do primeiro beijo. Eles não acham que são o casal perfeito, nem que foi o destino ou uma força mágica que os uniu. Na verdade, eles nem pensam sobre isso. Sabem, e sabem apenas porque sentem, que quando a vida se impõe, imprevisível e majestosa, é impossível dizer não.

5 comentários em “Só há sim se houve não

  1. Ah, a vida e sua incrível capacidade de mudar o roteiro das coisas e nos deixar sem palavras. Como você mesma comentou: “Sabem, e sabem apenas porque sentem, que quando a vida se impõe, imprevisível e majestosa, é impossível dizer não.”
    Para algumas coisas, mesmo que nossa vontade seja dizer não, e mesmo que lutemos para evitar, surgem com a sutileza de uma flor na primavera. Amei o seu texto. Um beijo 🙂

  2. Dizem que o melhor da viagem é esperar por ela.
    Dizem que o melhor da viagem é voltar pra casa.
    Discordo.
    Acho delicioso aguardar pelas viagens, bem como é delicioso ter uma casa para voltar.
    É muito bom fantasiar sobre possíveis amores, e muito bom saber que de amor não se morre.
    Mas nada se compara ao prazer da viagem que é o amor acontecendo.
    O seu texto, como sempre, diz muito de coisas que eu gostaria de dizer.
    A gente resiste enquanto pode, não enquanto acha que quer.
    E acho que uma das coisas mais lindas dessa vida é estar com alguém simplesmente porque se está com alguém. Sem destino, mágica, horóscopo, neurose, necessidade, amarras, nós, passado, futuro.
    Apenas laços e presente.
    Fechou o ano majestosamente, Cá!

  3. O tempo passa,milhares de pessoas passam pela cabeça,uns fazem mal,outros bem,mas no fundo um dia muda tudo e finalmente vem aquele que nos fará entender o porquê de tanta espera.
    Dizem que é assim,acredito!
    Texto maravilhoso,=)

  4. Tem gente que fala que nao gosta de surpresas, respeito porém não entendo.
    É melhor se surpreender com algo do que se decepcionar por ter criado (muitas) expectativas. Viva as surpresas!

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