A musa das musas

 

"Olhar, gostar só de longe
Não faz ninguém chegar perto"
(Cartola)

– Vai, minha Tristeza, e diz a ela que…
– …Não.
– …sem ela não… Peraí, como assim? Não?
– Não vou.
– Mas… mas, como assim? O que houve?
– Eu cansei. É sempre assim. Você fica nessa de jogar a culpa e toda essa responsabilidade nas minhas costas, é demais.
– De onde você tirou isso? Se você é quem mais me entende, Tristeza, você é quem me acompanha, sabe que eu fiz até prece pra ela regressar e nada!
– Prece? E desde quando prece resolve alguma coisa, meu amigo?
– O que eu faço, então? Eu não posso mais sofrer, Tristeza. Você já está aqui há muito tempo, você sabe da minha dor como ninguém. Vai lá, por favor. Sai de mim.
– Mas é esse o problema! É disso que eu estou falando! Você vive falando que eu não saio de você, mas não faz nada de concreto pra ir atrás dela! Fica aí se lamentando, falando sobre peixinhos, faça-me o favor! Que se danem os peixinhos! Só falta querer se queixar às rosas também!
– Mas imagina, Tristeza! Pensa comigo. Imagina se ela volta, que coisa linda, que coisa louca…
– Presta atenção, Samba. Você quer ela de volta?
– Quero.
– Mesmo?
– Mesmo.
– Então deixa eu te contar o que os olhos já não podem ver. É fácil ser feliz sozinho.
– Fácil?
– Muito fácil. Difícil é fazer alguma coisa pra mudar essa situação. Ficar curtindo a brisa de mansinho é fácil, mas me diz quantas vezes você telefonou pra ela? Quantas vezes foi à casa dela?
– Mas…
– Você gosta dela, não gosta?
– Sim, claro.
– E você nunca parou pra pensar no porquê de estar aí tão sozinho, e de tudo ser tão triste?
– Ah, eu me pergunto isso todo dia. Mas é que se ela soubesse que quando ela passa…
– Taí.
– O quê?
– O mesmo erro. De novo. "Se ela soubesse" uma ova! Chega dessa passividade. Vai lá e conta pra ela. Agora.
– Contar… contar o quê?
– Todas essas bobagens que eu aturo todo dia, ora. Vai lá e diz que o mundo inteirinho se enche de graça, que a luz dos olhos teus já não pode esperar. Chega de lararará, meu amigo. Chega de saudade. Eu já sou senhora desde que você é você. E se a realidade for mesmo a de que não há paz e beleza sem ela, vai lá. Agora.
– Mas… mas e você?
– Eu fico aqui. Eu não tenho fim, lembra? Se não der certo, você sempre pode voltar. Agora vai lá e conta tudo isso pra ela. Canta, se você se sentir mais confortável.
– E se ela disser que eu desafino?
– É natural, amigo. E pode ser com uma nota, pode ser com um monte, o que importa é que aí também bate um coração. Agora chega de conversa, vai lá morar naquele azul. Qualquer coisa me liga. Vou deixar a lâmpada acesa, como quando você deixava quando queria que eu entrasse, lembra? Agora é a minha vez de ficar. Só não abusa da regra três de novo…
– Pode deixar. Tenho a sua bênção?
– Sim. Vai lá e acaba com esse negócio de você viver sem ela.
– Tá bom… Só mais uma coisa, Tristeza.
– O quê?
– Obrigado.

E quando ele fechou a porta e saiu, a Tristeza sentou-se, sozinha e conformada, sabendo que a verdadeira musa de todo Samba não era de carne e osso; era ela.


Ricardo Alves possui uma relação de amor e ódio com as palavras.
Administra dois projetos musicais e atualiza seu twitter de vez em quando.
 
 
 

13 comentários em “A musa das musas

  1. Sim, a tristeza é a musa das musas. E há quem diga que a Tristeza não é bela.

    Um diálogo que todos precisavam ter com a Tristeza, viu.

    Texto leve e triste e belo.
    Obrigada, Ricardo.

  2. Que texto maravilhoso, Ricardo. Sabia que valeria a pena esperar por ele.

    Sentir falta machuca e tudo mais, conhecemos a história. Mas o que fazemos dela, com ela? Todo o possível? Será que nos arriscamos além das reclamações e promessas vagas? Nem sempre, isso sim é triste. Erro que não gosto de cometer.

    Um beijo e obrigada pela oportunidade de poder ler algo assim.

  3. Sou eu quem precisa agradecer com muito carinho as palavras li(n)das aqui.

    Fico feliz com a repercussão.

    E Cláudio, obrigado (mais uma vez) pelo convite =)

  4. Ricardo,

    fiquei sem palavras. Que texto mais sensível, sincero, bonito. Poderia ficar horas aqui adjetivando, que é o que faço quando não consigo encaixar algo nos padrões normais e esperados. Mas não vou fazer isso, vou só dizer que eu amei, fiquei muito tocada com as suas palavras, e que é um presente pra nós tê-lo aqui na Confraria.

  5. A tristeza é a maior musa inspiradora para a arte. Ela se torna música e poesia nas mãos de quem sabe usá-la.
    E você Ricardo, mostrou isso.
    Parebéns! Seu texto ficou simplesmente maravilhoso.

    Beijos ;*

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