Além do perfume

6 da manhã, acusava o relógio me despertando, e a realidade impiedosa fez com que ao me revirar na cama, lembrasse de como costumava ser tendo o corpo dela ali ao lado do meu. Era difícil acordar sem o inebriante cheiro que ela tinha, sem poder tocar sua pele macia. Ela era tudo que eu queria, mas as mágoas foram consumindo nosso relacionamento, as conversas cada vez mais superficiais e dispensáveis… Mas haviam dias bons e nesses, seu sorriso me dava uma paz que assustava. Com o passar dos anos já não tínhamos mais aquele desejo todo. Torpor demais em nossos olhos e uma certa preguiça de se arriscar pra além dos costumes, até que um dia fez as malas e foi embora, dizendo que muitas vezes o amor não é nada além de coincidência, comodismo, que ela queria ser mais, conhecer outros homens, viver uma vida nova, alçar outros ares, como um beija-flor. Não consegui perdoá-la, nem ela a mim. Já não restava mais nada que fosse nosso, sequer a culpa conseguimos dividir. O silêncio preencheu cada pedaço do quarto e nos primeiros dias eu não consegui dormir lá. Parecia que o perfume estava impregnado nas paredes, infectando meus pulmões com sua ausência… Agora acordo sentindo falta do cheiro.
De vez em quando a encontrava, desvantagem de se morar em uma cidade pequena, e ela sempre parecia cada vez mais encantadora e segura, sempre sem perder a delicadeza e a finesse, rindo e bebendo, com homens que sabia que eu detestava. Eles nem suspeitavam das intenções daquela mulher magnífica, nem sabiam de como se entendiava com eles, e os cativava, de uma forma quase cruel, pra mim que a conhecia. Eu não sabia o porquê, mas depois de mim ela nunca mais conseguiu se manter com homem algum por muito tempo. Acho que ninguém se abriu e disparou a falar asneiras em seu ouvido. Era só chegar perto do ouvido que ela se arrepiava toda, disso eu lembro bem. No ouvido tudo começava e me beijava com ardor e me pedia pra tomá-la, eu a amava inteira, me esforçava ao máximo para satisfazê-la do jeito que ela me satisfazia. De repente foi ficando cada vez mais distante, apática, acho que sonhava com uma forma de sair do casulo, de não se sentir presa, de não sentir dor.
Me levantei, me arrumei com pressa e encontrei-a tomando café-da-manhã na esquina. Eu quis chorar, os olhos marejaram com as lembranças bonitas, apenas a olhei e sorri e ela sorriu de volta.
Era hora de seguir em frente e por mais atrativo que estivesse o clássico croissant de chocolate que ela sempre pedia lá, minha boca aguava mesmo era de vontade de que só o lado bom do amor pudesse ser suficiente com um novo alguém.
Amanda Pires, aprendiz de escritora, não sabe ser nada
 além de sonhos, palavras, sorrisos e canções.

3 comentários em “Além do perfume

  1. E é nessas lembranças , nesses silêncios, nessas despedidas …nesses textos que encontramos as coicidências e contradições do amor.
    ……………………………..A emoção começou♥

  2. Como é raro sentir um texto assim…
    Chorei, por entender cada lembrança, cada falta, cada sensação…
    O lado bom do amor não se sustenta. É o lado ruim do amor, quando transposto que faz o lado bom ficar maior. Mas que ser humano tem a paciência e a tolerância necessária para viver pisoteando as coisas ruins e aguardando o florescer das coisas boas?

    Belíssimo texto. Embriaga_dor.

    Feliz 2013 e ótimas letras pra vcs.

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