(A)pesar


Você já estava longe, mas seu cheiro ainda estava impregnado em mim. Liguei o computador para te escrever palavras doces, mas vi você flertando com outras na internet, e tudo o que consegui foi azedar as minhas palavras.

Maldita Internet. Aproxima quem está longe ou afasta quem está perto? Não sei, quiçá, nunca saberei.

Só sei das minhas fugas e das minhas rugas, tudo culpa sua. Sei do quanto corro de você, e contraditória que sou, só tenho descanso nos seus braços.

Afasto-te de mim por te amar. Traduzo meu ódio em ironias e em palavras malcriadas, pra no instante seguinte, com voz doce e coração rendido que insiste em amar o que é imperfeito, dizer que te adoro e que tudo bem você galinhar. Afinal, eu só te tenho porque sei que você não é meu, e eu também só me entrego porque sei que jamais serei sua. Então outra vez eu paro de me entregar.

Quero-te tanto que finjo não querer, depois fico com medo de sair desse faz de conta, fico com medo de não poder mais fingir e com medo de ter que assumir que brinco de não querer enquanto disfarço o tanto que te quero.

Fico nessa confusão mental até você me ligar, choroso, dizendo que a viu com outro, que quer colo e acolhimento. Um puto. Um puto que eu acolho. Dou-te amor enquanto te odeio, e então você, todo docinho, resolve que me ama e que me quer, eu me rendo e somos amor.

Amor que se faz feito costura sem nó: de um lado se fia com linha e agulha, enquanto do outro desfia e desfaz qualquer projeto de costura. Outra vez me dou conta disso e te afasto com minha indiferença, te conto das minhas mil paixões, de como você é só mais um. Você me odeia por não me odiar, e enquanto isso eu te amo.

Juntos, construímos um muro, todo baseado na história de que precisamos manter uma distância segura, de que não podemos nos apaixonar e blá, blá, blá. Tudo mentira deslavada, daquelas que a gente diz de boca cheia que é pra ninguém duvidar, e assim quem sabe, a gente convencer a si mesmo.

Você flerta pela internet enquanto eu te conto das minhas paixões, e é desse jeito, ferindo um ao outro que a gente vai se amando, ninguém é o felizes para sempre de ninguém.

Tão confuso quanto esse texto, tão dramalhão quanto novela mexicana, nosso amor é de susto, mas veste-se de ódio.

Linha tênue que é nó cego, nó, que faz “nós” e não deixa que nos percamos por aí.

Jaqueline Silva aprendeu a enfeitar banalidades brincando de escrever.
(Mas ainda não contou como aprendeu a ser linda)


3 comentários em “(A)pesar

  1. Jaque, estou muito lisonjeada de lê-la aqui!
    Essa brincadeira que a gente faz de querer, não querer, fingir que quer, etc, por vezes nos confunde mais do que confunde o outro.
    Seja muitíssimo bem-vinda!
    Um beijo.

  2. Jaque,
    adorei te ler por aqui. Grifei mentalmente várias passagens, e no fim fiquei pensando que é justamente nesse jogo de amarrar e soltar que a gente se perde, e encontra o outro.
    Lindo demais.
    Beijos!

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