cHega!

Saudade se vestiu de verbo para se fazer entendida. Falou cedo suas conjugações na imensidão da minha rua. E gritou seu imperativo. Não ouvi. Saudade não se convenceu. Fez música e jurou cantoria. Trouxe voz, acorde e postura. Fingi sonolência. Música boa precisa de mais valentia. Saudade se aborreceu. Arrumou situação. Chamou atenção e quis holofote. [E eu querendo mais empenho.] Agiotou interesse. Translineou seu pedido em cartaz carmim. Queria visibilidade. Esnobei com olhar de desconfiança. Não me faço de interesse a qualquer uma. Saudade retrucou. Vomitou suas verdades. Chorou, entristeceu-se e acuada sentou. Melancólico fiquei. Tratar mal quem me deixou o amor, não pode. Não deve. Nem é merecido. Saudade ouviu. Ganhou forças. Tomou sentido. Retocou a maquiagem e tirou um lenço garboso que trazia escondido. Senti remorso. Tentei reversão. Saudade já tinha velhos planos. Agora já emudecida fez cara de resiliente. Superou a si. Superou a mim. E saiu a se prostituir. E se ainda pudesse fingir que amo, pensei sem sentido. Saudade não quis conversa. Levou a si mesmo e o que ainda restava do amor. Foi então que percebi. Saudade queria consideração. Aconchego e simpatia. E se ela voltasse, murmurei com pesar. Saudade me olhou distante. E gritou: ‘que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim.’

Rodolfo Lima é um dos fundadores da Confraria, escreve como poucos
 e tem uma baianidade caetanísitca

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8 comentários em “cHega!

  1. Rodolfo, que lisonjeio te ler aqui!

    Fiquei hipnotizada desde a primeira frase do seu texto.

    Às vezes parece mesmo que saudade tem vida própria. Embora eu sinta saudades mesmo daquilo que nunca houve…

    Adorei!

  2. Já não bastasse a primeira frase, que faço coro quanto à genialidade, o texto todo é delicioso. Quem disse que saudade é coisa de texto triste e pesado? O seu não, e, no entanto, fala dela melhor que muito drama.

    Muito bom te ler por aqui. 🙂

  3. MEUDEUS, que saudade de te ler, Rod.
    Estou emocionada aqui, lembrando de todos os lugares onde nossos caminhos literários já se encontraram.
    E, claro, emocionada por esse texto TÃO lindo, tão jeito-Rod de ser escrito.

    Um beijo!

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