Flô

Fiz fôça pá sê do jeito que tu disse que era pá henti sê, pai, juro.


Tu num disse que hômi, pá mochtrá que era hômi, ti’a que sê mais que hômi, ti’a que sê macho, ti’a que sê fó’ti, ti’a que sê duro, num chorá nunca, e guentá os tranco da vida? Pois eu figisso, pai, figisso dehdi molque. Tu num disse que hômi qui era hômi ti’a qui sê inguau bêja-flô? Pois então, eu sô. Pode tê certeza, pai, que eu sô. E dehdi pequeno eu tentei segui teu modo, qui eu tentei sê inguau cê falô pá mim. Acordo cedo, sem despetadô, antes de todo mundo, os moleque nem chegô dos assalto dê’is e eu já tô pegano a vã, o ônibus, o trem, a vã de novo. Coidi macho, pai. E quano os primêro fregueis tá correno eu já corri antes, já tô cá latinha na frente de’is, e pegano a latinha que eles tomô pá vendê dipôis. E quano já num tem mais ninguém por ali, só os menino querendo assaltá, é que eu vô embora, com dinheiro na cueca pá Maria. É, pai, Maria, mi’a primeira namorada, que tu disse que era pá cumê i vazá, lembra? Nóis tamo junto até hoje. E já tem um filho que eu fiz questão di cuidá, pai, mehmo sem sabê se era meu. Eu sei que a Maria era da vida, mas quem num é dessa vida, pai? E nem quero sabê se é do meu sangue, num me importa, é com’se fosse. Pu’quê eu aprendi uma coisa, pai, e é por isso que eu vim aqui falá, depois de tantos ânu. É que eu, depois de tudo esse tempo, agora entendi que é verdade: homi tem mesmo que sê inguau bêja-flô, pai. Só que num é aquêi bêja-flô que para di flô em flô, bebe da água dela e some. Porque bêja-flô toméim é aquele que sabe fica parado nuá. E pode fica ali, nuá, parado, quanto tempo quizé. Pois diferente do sinhô, que fez da mãe flô que se bebe e se esquece dipois, eu sô bêja-flô que escolheu a flô que ia ficá parado bebeno. Minha flô si chama Maria. Minha flô se chama meu filho. E tem que sê muito forte pá fica uma vida intêra parado nuá, batendo as asa na frente de uma mulé só. Isso sim é sê macho, pai. E tem que sê muito macho pá sê inguau a esse bêja-flô que eu decidi sê. Um bêja-flô, e é isso que eu vim dizê, tu nunca foi, pai. Nunca.


Mas eu sô.


Marcos Bassini é redator, compositor e acabou de transformar uma história em flô.  

17 comentários em “Flô

  1. Não é uma competição, eu sei. E os três textos publicados até agora estão divinos, cada um à sua maneira.

    …mas esse ficou com o cinturão até agora. Brilhante, parabéns =)

  2. É pai, você nunca foi “bêja-flô” nem “macho”, mas que filho forte você teve.

    Estou boquiaberta com a força e beleza desse texto.

    Parabéns Marcos.

  3. Lindo por demais…..Que texto bonito! Emocionada até agora…ai!

  4. “E tem que sê muito forte pá fica uma vida intêra parado nuá, batendo as asa na frente de uma mulé só.”

    Podia recortar vários outros trechos tão belos quanto esse, mas mais bela ainda é a emoção que você provoca com ele.

    É um prazer te ler aqui na Confraria.

  5. Me emocionei tanto que eu não consigo fechar esse texto. Eu quero ficar aqui, voando parado. Parado nuá.

    Isso me deixa tão feliz.

  6. Apenas que:

    clap, clap, clap.

    (que escrita encantadora!)

    Felicíssima de ler um texto tão belo por aqui, Marcos!

  7. Uau!! Que texto lindo de lê, sô!
    Olha,é lindo ser trouxa num universo de sentimentos e letras tão fundas, tão abusadamente lindas.

    Parabéns, Marcos pela escrita e, se for vida vivida, por ser beija-flor.
    Obrigada por nos dar suas letras, dá vontade de levá-las conosco.

    Um carinho de escrita, uma alegria enorme desejada no seu coração.

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