Separando os bagaços

Nos separamos. E foi coisa que não teve jeito, foi daquelas “pra sempre”, sabe? Ainda que tivéssemos vivido uma história completa antes disso. Com direito a muito amor e mágoa. Com direito àqueles finais de semana que a gente sabe que vão acabar e  tenta enlouquecidamente fazer o tempo parar, e é quando faz isso que tudo desanda? Quando a gente prende o passarinho na mão com tanta força que ele morre asfixiado. Perdi meu passarinho assim. Perdi a gente. Foi uma história bonita, cheia de intimidade e confissões. E um amor tão grande que quando acabou deixou todo mundo triste e órfão dele. Quando acabou o amor, e a delicadeza nos atos, e a tolerância, acabou também nosso respeito e carinho de outrora.

Te encontrar agora é mais fácil. Enfrentar os fantasmas que me acompanham desde aquele sábado que cheguei em casa e não te encontrei, nem tanto. Na época eu esperava essa atitude, mas me vali do seu ato covarde para me convencer de que você não foi bacana e com isso, eu não era a algoz da nossa linda e agora triste história. Nos machucamos achando que estávamos nos preservando. Agora quando lembro daquilo, penso no que podia ter feito da minha vida e não fiz. Podia ter me desprendido ali e não esperado você voltar. Contudo e depois de tudo, sobrevivemos (sempre sobreviveremos).

E mais uma vez cá estamos, encenando esse reate da maneira mais tosca e clichê. Num quarto de motel, nos valendo de um carinho hipócrita para aliviar nossas carências e fraquezas e não mais nos responsabilizar pelo que de fato, desejamos mutuamente.

De tudo isso, difícil mesmo foi o dia nascer lá fora, e eu aqui te vendo dormir, precisei recorrer a lembranças da infância (de quando meu pai brigava comigo e me mandava engolir o choro), me aninhei em você como se fosse a última vez. A partir de agora seria assim. Finalmente hoje, entendi que ao invés de sufocar o pássaro, em se tratando de você não poderia, sempre a última vez. Porque sabia que quando pegasse no sono você iria embora.

Te perdoo pela nossa inconsistência, não te acuso mais. Você vai e volta sempre. Cada vez que a sede bater, é na nossa janela que você vai pousar…

         

           Letícia Rangel é budista, livreira e está sempre 

espalhando o amor em forma de letras.

5 comentários em “Separando os bagaços

  1. As coisas terminam antes de acabar. Fechar os olhos não faz o mundo parar de girar, mas por vezes é necessário.

    Lele, estou muito feliz por postar seu texto aqui na Confraria. Adorei! Seja muito bem-vinda aqui,

  2. Lelê, em primeiro lugar, seja muitíssimo bem vinda, é ótimo te ter por aqui.

    E olha, que bela estreia pra Confraria de Verão. Às vezes a gente precisa insistir até entender, ou até mudar, seja pra sair ou pra continuar. Adorei o texto.
    Beijos!

  3. Animadíssima com a Confraria de Verão, e que bela surpresa logo no primeiro dia.

    “Te perdoo pela nossa inconsistência, não te acuso mais. Você vai e volta sempre. Cada vez que a sede bater, é na nossa janela que você vai pousar…”

    Poderia passar uma vida refletindo apenas sobre esse trecho. Extasiada com o texto. Amor é mesmo passarinho.

    Meus parabéns Letícia.

    Muito obrigada Confraria por apresentá-la.

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