1, 2, 3, 2, 1, 2, 3, 2, 1, 2…

1.
Pela primeira vez na vida eu me sinto inteira. Estou entorpecida do seu desejo. Cada pedaço da minha existência te quer loucamente toda vez que os ponteiros do relógio dançam. Você sabe, comigo é 8 ou 80, é tudo ou nada, é preto ou branco, e isso me complicou muitas vezes na vida. É difícil lidar com o nada de alguém quando se tem tudo para se dar. Dessa vez é diferente, eu sinto o seu tudo tocando o meu tudo e quase escuto sinos baterem. Blém, blém, estou feliz, blém, blém, a falta me falta.
2.
O nosso tudo se quebrou – nuns mil pedaços. Não sei quando foi que o que havia em nós se estilhaçou, não senti o frio na barriga da queda, devia estar estava anestesiada no tombo. De repente, eu estava aos pedaços. Eu era a nossa paixão. Você não era quem eu pensava. Eu nunca fui o que você pensou que eu sempre tivesse sido. Nunca nos demos tão bem quanto eu gostava de pensar que nos dávamos. Você nunca foi o homem da minha vida e eu nunca fui a mulher da sua. Nós apenas amávamos o que esperávamos um do outro. Seu corpo me serviu de espelho, e eu me amei em você. Minh’alma te serviu de água e você se banhou em mim. 
3.
A gente se ama em cacos, tentando reconstruir alguma coisa que já não existe mais, alguma coisa que talvez nunca tenha existido para além do nosso desejo de que existisse. Agora estamos nós dois aqui, despidos de ilusões. A realidade é fluorescente e faz doer os olhos. Era mais fácil olhar pra ela com os óculo-arco-íris da fantasia. Mas por algum motivo que me é obscuro, você me parece mais interessante do jeito que você é do que do jeito que eu queria que você fosse. E por algum motivo que você não sabe explicar, você deseja a minha presença, mesmo me odiando algumas vezes. E esse motivo que a gente não sabe explicar, eu espero que seja amor. Às vezes um caco de mim ama um caco seu, às vezes um pedaço de mim odeia um pedaço seu. E quando a gente não se machuca com os nossos cacos, vamos montando um (a)mo(r)saico.


2 comentários em “1, 2, 3, 2, 1, 2, 3, 2, 1, 2…

  1. “E esse motivo que a gente não sabe explicar, eu espero que seja amor.”

    Coisa mais linda, Ana, terminei amando todos os pedaços do teu texto.

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