cuore in pezzi

ontem mesmo o vaso de flores quebrou. caiu de uma altura de um metro e meio. água, flores, cacos pelo chão. enquanto caía, o tempo passava em câmera lenta. tudo mais lento que o normal. o coração quase parando. ausculta. e a mão não mexia um dedo, apenas acompanhava o movimento da queda. as flores se desprendendo enquanto o recipiente cônico de vidro translúcido desenhava piruetas no ar. minhas lágrimas ali dentro, uma chuva em erupção. subindo, me fazendo suspirar. do pó ao vapor. sublimamos sentimentos, vontades, desejos. enquanto eu ouvi estrelas, tudo foi lindo. hoje, a noite não tem uma sequer. sequei o chão. juntei os cacos, quase me cortei. dentro da pá as lembranças despedaçadas. e a pergunta que chiava no despejo à lixeira era, quem mereceu o quê. juntei as flores, fiz uma coroa, um enterro de mentirinha. foram tantas mentiras, que perdi as contas. pedaços de conchas encontrados na areia do quintal, enquanto eu cavava sua cova rasa, lembrei do mar. o amor não mais vai me fazer de refém. as lágrimas pararam de cair quando terminei o pai nosso. 

e quello avea la fiamma più sincera
cui men distava la favilla pura,
credo, però che più di lei s’invera.

amém.

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nota.

e a flama rutilava mais sincera
no que da Excelsa luz mais perto estava
creio que em fluxo seu mais recebera.

trecho da divina comédia, de dante alighieri. paraíso, canto xviii, terceto 37-39.
tradução de josé pedro xavier pinheiro

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3 comentários em “cuore in pezzi

  1. Os cacos estão sempre por aí, se acumulam nas lixeiras. Até o lixeiro se comove quando vai recolher meu lixo. Mas já tem outro vaso no lugar daquela sombra.

    Belíssimo, Salviano.

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