O inconsciente fala, mas o Eu é surdo

Ela entrou na sala sorridente como um clichê, e antes que eu fechasse a porta disse,


É o amor!


Sentei-me e olhei pra ela, que não precisou de mais que um olhar para continuar,


Eu não avisei que estava pronta pra quebrar novamente? Ah, mas olha, dessa vez acho que vai demorar viu, agora é amor de verdade, tenho certeza. Ele me liga só pra dizer que é louco por mim, que sem mim tudo é saudade, e todos esses clichês lindos…


Ela continuou a falar ininterruptamente, vomitando clichês quase sem respirar, e a minha sensação é que ela tinha medo de que se parasse de falar, tudo desapareceria. Mas essa era a minha sensação, e ela não estava ali pra ouvir a minha sensação, mas para que eu ouvisse a dela. E no meio de tantas palavras, escutei,


Quando estou com ele, me esqueço de mim.


Interrompi ali a sessão, esperando que ela ouvisse o que eu tinha escutado. O problema é que o inconsciente fala, mas o Eu é surdo. E ela continuou na sessão seguinte a relatar todos os momentos do conto de fadas que estava vivendo, com pausas ocasionais para elogiar o sol lá fora, a música que tocava na sala de espera, a minha roupa, tudo lhe parecia lindo. Eu, sabendo que tanta beleza não dura, e temendo pelo momento em que ela se quebraria mais uma vez, ficava agoniada, queria alertar, mas sempre me lembrava de você dizendo que não adiantava o que eu achava, previa, ou mesmo sabia, que ela tinha que fazer seu próprio percurso.


Meu amigos dizem que não aguentam mais, que só falo do Paulo o tempo inteiro e que parece que esqueci que existe mais do que ele na vida. Acho que eles têm razão, mas não é isso o amor? Esquecer-se de si para viver o outro?


            É isso que você busca no amor, perguntei. Alguém que lhe poupe de viver sua vida, seus medos, suas escolhas e suas consequências? Achei que tinha ido um pouco além com as palavras, mas às vezes elas escapam. Ela ficou em silêncio, e eu também. De repente, ouvi um som quase inaudível, uma lágrima escorrendo. Quase sem voz ela disse,


Sempre achei que fosse muito altruísta por me preocupar mais com ele do que comigo, muito romântica por fazer do amor o centro da minha vida. Mas agora, pensando no que você perguntou… Será que tudo isso é uma tentativa de evitar olhar pra minha própria vida?


            Interrompi a sessão, novamente na intenção de uma escuta que a fizesse encontrar sua própria resposta. E com a esperança de que eu, um dia, também encontrasse a minha.  

4 comentários em “O inconsciente fala, mas o Eu é surdo

  1. o que é o amor? ser altruísta? ser egoísta? não ser? ser demais?

    não sei.

    só sei que estou até agora pensando nisso, e a culpa é tua! rs

    beijos,
    @paraquenomes

  2. O amor tem sua própria essência ou ele é o que queremos fazer e sentir dele?
    “O problema é que o inconsciente fala, mas o Eu é surdo.”
    Fica difícil saber se é ou não amor até nos depararmos com e seu fim e ficarmos apenas com os “e se…”
    Talvez o amor morra da mesma forma que morre um deus: quando a crença nele é quebrada por algo ou alguém.

    Lindo o texto Carina. Bastante reflexivo. Parabéns!
    Um abraço. <33

  3. Eu estou encantada com esse seu estilo de escrita.
    (Porém, todas as facetas da sua escrita me encantam)
    Me lembrei da ideia psicanalítica freudiana do amor como resistência. Claro, ele diz na transferência, mas será que também não o é na “vida”?
    Será que amamos porque amamos ou será que o amor é uma fuga de si?
    Mil questões pulando aqui…

  4. Sempre achei uma delícia essa sensação. Agora vocÊ virou todo o cimento das minhas certezas com a pá do seu texto. Isso não é amor. Cacilda!!!!!!!!!!!!!!!!!

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