Paralisando para enrolar

Eu sei que a amo, mas não sei se ela me ama. Como alguém pode viver assim?


Porque não há como viver de outro jeito, eu pensei. Mas não disse, não naquele momento. Perguntei se a dúvida lhe angustiava,


Óbvio, ninguém gosta de não saber.


Ele fazia muito isso, respondia se igualando a outros, sempre em conjunto com amigos, família, a namorada, ou em casos como esse, a humanidade. Perguntei o que vinha à mente dele quando pensava em dúvida.


Erro. Risco. Medo. Pensamento. Paralisia.


Questionei a paralisia, e ele disse que sempre se sentia paralisado pelas incertezas. Várias vezes deixou de viajar porque não decidia se ia ou não até que já fosse tarde demais, isso porque achava impossível decidir sem saber. Eu disse que ele estava decidindo.


Claro que não, eu me enrolo e acabo não fazendo, mas não decido não fazer.


Como é difícil a gente se ouvir, perceber que tudo que fazemos é decisão nossa, seja consciente ou não. Quando ele disse que não conseguia dizer que amava a namorada sem saber antes se ela o amava, eu disse que não era que ele não conseguisse. Era que ele conseguia não fazer. Cada vez que perdia o prazo, ele conseguia não assumir seu desejo, não arcar com a responsabilidade.


Um colega me disse que quando a gente faz análise descobre que nossos pais são culpados de tudo, mas eu tô vendo que você quer é me culpar. É isso, não é? Pronto, você venceu, a culpa é toda minha.


Culpa não, responsabilidade. Você é responsável pela sua vida, claro, quem mais poderia ser? Encerrei a sessão e logo senti que talvez tivesse falado demais. Quando na sessão seguinte ele chegou dez minutos atrasado, eu já estava certa de que realmente tinha me excedido. Até que ele disse,


Falei que a amo. Não sei o que me deu, encontrei com ela depois que saí daqui a última vez, e no meio do encontro ela sussurrou algo que nem lembro, só lembro que entre as palavras quase inaudíveis eu escutei seu sorriso, lindo, e quando vi eu tinha falado, Eu te amo. Assim, sem planejar. Só depois eu pensei: e agora?


Agora, com sorte, você vai viver, pensei eu. Vai amar sem saber o porquê, como, quando, mas vai adorar cada minuto, mesmo as brigas, mesmo o ódio que é o avesso do amor, mas ainda assim amor. Vai ter mais centenas de dúvidas, nenhuma certeza, vai arriscar, errar, mas ainda assim acertar. Porque o erro feito com desejo é o melhor dos acertos.


3 comentários em “Paralisando para enrolar

  1. Não sei se conseguiria escrever um cometário que conseguisse expressar o que eu senti ao ler o desfecho do seu texto.
    Você consegue mexer nos sentimentos das pessoas com seus textos. Bateu-me uma sensação tão boa quando li o final. Quase como uma felicidade clandestina que aparece do nada sem nem sabermos direito o porquê. Parabéns pro mais um belo texto.
    Um abraço Carina, um pouco mais forte por ser o dia do abraço. <33

  2. Ca, achei esse texto tão diferente de todos os outros, ainda que cada linha esteja tão marcada com seu estilo de escrita.

    “Culpa não, responsabilidade”. – Que pancada isso. Talvez, se de fato conseguíssemos aceitar isso, a vida se tornaria mais fácil, ou pelo menos mais clara.

    Feliz de ter passado por aqui, estava precisando desse lembrete. Então, novamente tenho que agradecer por ter destrancado uma janela. Olharei muitas vezes por ela.

    Um beijo.

Os comentários estão fechados.