Prefiro os avessos



Que delícia de começo. Estou mais leve do que quando peguei aquela intoxicação alimentar por ter comido uma coxinha frita em óleo de qualidade duvidosa no terminal de ônibus, e fiz da minha vida o banheiro. Ah, a juventude! O amor sempre caía pesado nela. Muito amor, muita urgência, muito pouco proveito. Tudo. Nada. Oito. Oitenta. Sensações demasiadamente intensas para acariciar a pele da alma sem machucar. Idealizações mil. Exigências de perfeição. Expectativas rasgando a existência. 




Agora é leve. Levaram as minhas neuras e eu fiquei levada. Levada da breca. E a vida não breca, apenas passeia pelo universo do tempo que se inscreve no espaço. Tic-tac, o relógio canta, enquanto desenha o tempo na minha pele e o apaga da minha alma. Descobri que as coisas são mais fáceis quando não me esforço tanto. Amar se torna simples quando abrimos mão da neurose.



Ouço a vida sussurrar coisas sem sentido e rio descaradamente. Estou apaixonada e não sei se sou correspondida. Acho que não. Talvez sim. Não me importa. Vai ser assim e vai ser bom. Deixei de criar expectativas, agora são elas que me criam. 








3 comentários em “Prefiro os avessos

  1. “… Deixei de criar expectativas, agora são elas que me criam…”

    Criar expectativa é assim, é querer carregar um peso que não nos pertence!

    Na expectativa, idealizamos. E idealizar, não é nada bom. Idealizar faz parte do ideal, e o ideal não nos pertence…

    O que nos pertence é essa porção de realidade onde choramos e sorrimos, onde o feio se torna bonito, e o bonito, segue sendo bonito mesmo sem ser belo…

    Não quero expectativa, quero apenas a arte de esperar sem crer. Apenas esperar sem idealizar…

    Ser surpreendido, ainda é algo que vale a pena viver…..

  2. “Amar se torna simples quando abrimos mão da neurose.”

    Tô desde segunda com essa frase na cabeça pensando: o problema é que abrir mão da neurose não é nada simples. Mas, vamos lá, né.

    Belíssimo texto, Aninha.

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