Sombra no chão

Acordou sem querer acordar. Não pretendia abrir os olhos, mas abriu. Seus olhos já não eram mais os mesmos. E queria voltar pra cama, mas ainda assim resistiu, abriu a porta e, não querendo sair de casa, saiu.
 
Um novo mundo o esperaria, mas não o esperava mais. E ele não queria saber disso, mas sabia. Sabia que seria tortura, sabia que ia fraquejar, sabia que não era o cara certo, e também sabia que precisava falar alguma coisa. Mas não sabia o que falar.
 
E sem querer ir, foi. E fraquejou. E emudeceu. E chorou. E não queria, precisava se convencer de que não havia mais jeito, mas parecia impossível. E tentava entender tudo, como se fosse fácil. E pensava em tudo, como se fosse eterno. 
 
Mas agora não quer pensar mais.
 
Agora ele quer sorrir, quer chorar, quer apenas reagir, saber como reagir. Mas não sorri. Não chora. Não reage. Voltou pra casa. E dormiu sem querer dormir. Não pretendia acordar de novo, mas dormiu.
 
Dormiu sabendo que não era pra ser assim. E por trás da luz, brilhando ao longe, a sombra no chão, antes no plural, agora era uma só.

2 comentários em “Sombra no chão

  1. Sabe, Ricardo, eu vivo acordando sem querer abrir os olhos, vivo dormindo sem querer acordar. Acho que vivo vivendo sem querer viver. Não faz sentido, eu sei, mas acho que nem a vida faz.

    Obrigada por me permitir me encontrar em suas palavras.

    Todo e qualquer adjetivo que eu usar vai soar redundante, mas gostaria de dizer que amei seu texto.

    Um beijo da sua fã paranaense,
    Dani.

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