Das palavras repetidas

Abri a porta do consultório e encontrei a carta no chão da sala de espera. Quando vi o remetente tentei telefonar antes de ler, mas ela não atendeu. Desliguei o som, peguei uma xícara de café e me sentei com os olhos fechados e o pensamento correndo. Depois da falta na última sessão ficou óbvio que algo estava acontecendo com aquela paciente sempre tão assídua e pontual, mas a carta me pegou de surpresa. Não havia mais nada a fazer além de ler. Ela começava se desculpando pela falta e por não ter telefonado para avisar, e seguia,


Não aguento mais essa sensação de ter tanto a dizer, mas dizer sempre a mesma coisa. A cada vez que você me abre a porta acho que tenho mil histórias pra contar, mas quando abro a boca só sai a mesma coisa. E me lembro que comentei com você que os meus amigos reclamaram que eu só falava do Paulo o tempo inteiro, e sei que era verdade. Como antes só falava do Diogo, e antes do Tiago, e antes do fulano, do sicrano, daquele que nem lembro mais o nome, sempre o mesmo blá blá blá de amor e de fim, de amor e de fim, e não consigo mais. Eu tenho tanto pra falar, mas parece que com palavras não sei dizer. Elas não são o suficiente, sempre falham e falam menos – a não ser quando eu falho e elas falam mais, naqueles atos falhos que sei que você adora. Há algum tempo li uma frase que dizia: Calou-se. Não por ficar sem palavras ou não haver mais nada a dizer, mas porque não há como falar tudo que se diz quando se fala de amor. E acho que é isso que está acontecendo comigo, percebi que não posso dizer tudo sobre o amor, aliás, nem sobre mim, então prefiro me calar.


Ela encerrava a carta dizendo que me procuraria se em algum momento reatasse com as palavras. Mas eu não achei que deveria esperar. Telefonei novamente e deixei um recado dizendo que a estaria esperando no horário de sempre no dia seguinte. Disse que tinha escutado sua angústia, mas que não há como escapar das palavras. Falar é nossa forma de existir no mundo, e é por isso que é tão falha – porque nós, quando de fato vivemos, também somos.


6 comentários em “Das palavras repetidas

  1. Começo dizendo que gostei da forma com a qual o tema foi abordado. Um belo texto e próximo da nossa realidade. É tão inquietante essa sensação de ter tanto para dizer e não conseguir ou de sempre ligar para alguém para falar do mesmo assunto, mesmo tendo prometido que não falaria mais naquilo.
    Estou fazendo um trabalho de sociologia atualmente que aborda essa necessidade que as pessoas possuem de ter quem as escutem. Ouvimos tantas vezes a mesma história repetida. O que fazer se “…)não há como escapar das palavras. Falar é nossa forma de existir no mundo, e é por isso que é tão falha – porque nós, quando de fato vivemos, também somos.” ?

    Um abraço Carina.

  2. “Não há como escapar das palavras. Falar é nossa forma de existir no mundo, e é por isso que é tão falha – porque nós, quando de fato vivemos, também somos.”

    Esse único trecho já nos dá tanto a pensar. Adoro essa oportunidade que você nos proporciona de reinventar as certezas.

    Ps: Muito amor por essa música.

    Um beijo.

  3. A palavra reflete a nossa própria falta. Deixar de olhar no espelho não nos faz deixar de existir, deixar de falar não nos faz abandonar a falta, não há como escapar de nós mesmos.
    Lindo, lindo, Cá.

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